31 dezembro 2004

Pequenas resoluções de ano novo

“No nove, no oito e no sete, me apertou a mão. Se Liana me visse, em pleno reveillón...”
Adriano de Severo, “Novo Tempo”.

1.
Quando eu o encontrei na segunda vez em frente ao restaurante, ele tentava se desviar dos pingos da chuva. Assim que me viu, abriu um sorriso que denunciou todos os seus dentes inexistentes e pareceu crer que eu realmente me aconchegaria no seu cobertor imundo e cheio de rastros de ranho. Com todo um misânscene ao mesmo tempo deprimente e tocante, encostou um dos joelhos no chão, abrindo os braços e, à minha frente, enfiou o naco de pão entre os dentes como quem morde uma rosa com todo o cuidado. Era um misto de figurante de peça de Shakespeare e cachorro pedindo comida.

Ainda que contra os meus princípios convenientes de pequeno burguês, favorável às ideologias apoiadoras de sistemas governamentais que garantam a subsistência dos desvalidos – contrário, portanto, ao ato de dar esmolas à pobres-diabos que cruzam comigo pela rua à toda hora – saquei da carteira e, em uma esmerada inflexão dos joelhos, procurando dar continuidade à representação por ele iniciada, me estiquei o mais que pude para lhe alcançar uma nota de dez reais.

Não me dei por conta de que uso daria à quantia – não me importava o destino final do dinheiro que lhe entregava. Ele pegou da nota, dobrou-a em sete pequenas porções e a enfiou dentro do naco de pão. Reclinou-se com um floreio, socando o pão no bolso e foi remexer a lixeira do bar do outro lado da rua. Ana, ao meu lado, me disse que eu era um imbecil por dar dinheiro ao homem e que ele iria encher a cara de cachaça. Pensei que mesmo sendo ainda o último dia do ano e que minhas resoluções começariam a vigorar somente a partir do próximo, não ficaria bem quebrar os dentes de Ana, por que, afinal, ainda tínhamos que chegar à casa de Clóvis para a festa.


2.
Das lembranças da noite anterior que restavam à sua volta quando acordou, encontravam-se o cinzeiro repleto de guimbas de cigarro, as dezenas de copos sujos, garrafas vazias e todos os cheiros que continuavam a empestear o ar. Do seu lado, ninguém e, por toda a casa os destroços da maldita festa. Como todo final de festa, o fim das ilusões de estar cercado - reforçadas pelos abraços e desejos de feliz ano novo - e a certeza da solidão, única verdade inconteste.

Não tinha vontade de levantar da cama. À frente, a televisão continuava emitindo um chiado ininterrupto em uma estação inexistente. Em algum ponto do corpo, a dor. Não virou para ver que não acharia o controle remoto que estava em algum lugar muito perdido da casa. Foi o tempo de não olhar e não ver o Sérgio, que dormia no chão de tabuão, ao lado de sua cama. Somente não contrariando mais a verdadeira necessidade que tinha de caminhar até o guarda-roupa, achar alguma toalha limpa e uma calcinha que não fosse bege, é que teria a chance de levantar da cama, tropeçar no corpo de Sérgio – jazia como um cadáver: nu e gelado – e se espantar por que, afinal, não estava sozinha em casa. Como não contrariou a vontade, por que se sentia realmente uma puta, deitada com os cabelos desgrenhados e fedendo à cigarro, com gosto de batom e licor e cerveja e uísque na boca e achando que um banho poderia fazer-lhe melhor, foi que resolveu caminhar até o guarda-roupa para achar alguma toalha limpa e uma calcinha que não fosse bege (ia encontrar Mário e se tudo se encaminhasse da maneira corriqueira de sempre, estariam transando antes do final da tarde e não gostaria de estar usando calcinha bege). Levantou da cama e tropeçou em Sérgio, deitado como um cadáver: sem roupa e com os olhos arroxeados. Como não precisara dar mais que dois passos no exercício de levantar da cama e acertar o ombro direito de Sérgio com o peito de seu pé, foi somente no terceiro passo, quando firmou este mesmo pé no chão frio de tabuão, que sentiu realmente, a dor insuportável (ainda que tivesse suportado, porque, tudo o que fez foi berrar como uma porca abatida com um golpe de faca e cair novamente na cama; de resto, continuou existindo como sempre e sentindo a dor) que começava na parte traseira da coxa e se estendia ainda e de maneira latejante até a polpa da sua bunda, envolvendo todos os músculos de suas nádegas e encontrando seu centro de maior potência em algum ponto infinito do seu cu.

Quando desabou sobre a cama, junto com a dor, ouviu os murmúrios de Sérgio, perturbado pelo seu chute involuntário, mas que continuava no seu estado de semidesmaio a babar o chão de seu quarto. A dor, prolongando-se, através de sua espinha até a nuca conseguiu se manifestar em toda a sua intensidade, não dando atenção para a cabeça já incomodada pelas fartas doses na noite anterior de licor e cerveja e uísque. A dor foi mais do que suficiente para atingir algum ponto do cérebro que lhe recordou os excessos da noite passada. Das lembranças da noite anterior que restavam à sua volta, mais do que um cinzeiro repleto de guimbas de cigarro, as dezenas de copos sujos, garrafas vazias e todos os cheiros que continuavam a empestear o ar, vieram também os insistentes pedidos de Sérgio, suas malemolentes e risonhas recusas; os mais insistentes pedidos de Sérgio e suas esquivas e hesitantes recusas; os ainda mais insistentes pedidos de Sérgio e seus nãos de voz embargada, denunciando, por insistência ou cansaço, um sim ou algo semelhante a isto, entre dentes e álcool, de quem se deixa levar por mãos que acariciam e abrem caminho, vagarosa, porém decididamente. Das lembranças da noite anterior vieram uma língua molhada que entrava no seu ouvido, alguns murmúrios excitados e dentes gelados que mordiam sua orelha, um corpo pesado sobre o seu corpo estirado provavelmente na mesma cama em que acordara e uma calcinha não-bege arrancada com força e jogada em um canto do quarto. Das lembranças da noite anterior, algum creme ou gel que se fazia frio entre suas nádegas, amortecendo em parte sua sensibilidade ali e um corpo que entrava vagaroso, como se não devesse, porém ignorando terminantemente qualquer proibição e que terminava rompendo com estocadas (como que) intermináveis e em gritos seus que não se faziam ouvidos, em movimentos violentos de um corpo se chocando brutalmente contra suas nádegas e no cessar repleto de espasmos daquele peso que se fazia sobre si.

Das lembranças da noite anterior, seu corpo mole e seus sentidos alterados. Algum corpo que desabava para o chão depois de gemer e seu seguinte estado de inconsciência.

Da sensação desta manhã, a dor, somente a dor.

Da dor a certeza, travestida em resolução de novo ano, de não voltar mais a tomar no cu.