08 dezembro 2004

Subúrbio

Se você não mora por aqui, pode se incomodar com as dezenas de cachorros que perambulam por toda a volta. Eles são de todos os tipos possíveis, todas as raças inclassificáveis, todas as combinações improváveis, em todas as cores e tamanhos e aspectos; tomam conta do lugar, caminhando a esmo, em suas matilhas gigantescas e podem, por vezes, tornar tudo tão desagradável.

No entanto, se você já é morador destas bandas, se conhece o lugar como eu conheço, deve ter se acostumado com a multidão canina a lutar de maneira selvagem, disputando desesperadamente uma carniça ou um pedaço de carne encontrado num destes latões de lixo enormes que têm por aqui, em todas as esquinas, onde as famílias de negros colocam seus lixos domésticos, esvaziam sua cota semanal de papel higiênico, cascas de frutas, sapatos velhos e toda sorte de quinquilharias – eles são semelhantes àqueles latões grandes que vemos em filmes passados nos bairros norte-americanos do Bronx e do Brooklin, que mostram com exagerada freqüência improváveis negros maltrapilhos em torno do fogo entoando canções de blues ou protagonizando perfeitas performances vocais gospel como se fossem felizes e como se aquilo lhes preenchesse realmente a alma.

Em criança, víamos esta multidão de cachorros caminhando atrás de uma cadela no cio. Como que hipnotizados por aquele odor que emanava de suas entranhas, sinalizando-lhes sua condição de animal pronto para a cópula, formavam uma aglomeração gigantesca a perseguir a pobre fêmea. No entanto, embora fossem quadras e quadras a persegui-la, poucos se encorajavam a uma investida sexual por cima dela. Quando um dos pequenos tentava, era repelido pela cadela em seu comportamento extremamente seletivo. E eram aquelas correrias de cachorros pelas ruas de areia seca como são sempre as ruas daqui. Somente quando se aproximava o maior cão, o mais decidido, aquele que se atrevia a cheirar convenientemente o ânus da excitada cadelinha antes do bote final, é que a fêmea se deixava penetrar. E era um coito muito rápido, o cachorro desferia algumas estocadas e pretendia seguir o seu rumo, satisfeito. A cachorra não saciada retinha-lhe, no entanto, ansiando por sua parcela de prazer não proporcionado. Depois, aquelas cenas nojentas, os dois cães presos pelas traseiras, a cachorra não querendo soltar o macho enquanto ele não a satisfizesse como uma boa cachorra no cio merecia.

Incrivelmente, em nossa perversidade infantil, nos púnhamos a apedrejá-los, querendo que acabassem com aquele atrelamento que nos punha cheio de asco. Não adiantava, não corriam em disparada em sentidos contrários como esperávamos. Protagonizavam aquelas cenas medonhas, como carros rebocados. Os cães só se soltavam quando as mães, cansadas de ver seus filhos presenciarem aquela putaria os espantava com uma mangueirada d’água. E o casal era posto para correr. E a cadela, insatisfeita, seguia o seu rumo. E não, ninguém via a nossa boa ação. Nossa boa vontade em desatrelar os rabos daqueles cachorros nojentos, poluindo a visão da criançada em suas sacanagens pelas ruas. Tentando impor um pouco de respeito naquele subúrbio. Para eles, éramos somente uns crioulinhos perversos dados a maldades. Ainda que nós desde sempre fôssemos maioria por aqui. Aqueles brancos é que faziam de conta que não era assim. Diziam que nós perturbávamos a paz das ruas, que causávamos confusão, que éramos barulhentos demais. E que complicávamos suas vidas. Eles que queriam continuar suas vidas azedas enfiados dentro de suas casas, com medo de sair às ruas à noite, enquanto nós seríamos os donos da rua. A rua que sempre foi nossa.

Nós não tínhamos opções como eles, não tínhamos a televisão em cores de maior tamanho, o brinquedo que era lançamento, o lanche no final da tarde, a professora particular a dirimir as dúvidas que a escola pública plantava. A nós, eternamente, o resto. A coisa arranjada, mal-ajambrada que nos cabia sempre. Nossa liberdade absoluta em compor as coisas a nosso favor, no entanto. Nosso cenário absolutamente formulado a nosso bel-prazer. Nosso destino apresentado nas poucas diversões que nos sobravam, nos facilmente contáveis e pouco atrativos caminhos que nos restavam. Por isso à noite eram sempre os postes em frente às escolas, sempre “os crioulos” – como eles gostavam de encher a boca para falar – metidos em suas jaquetas e bonés de times de basquete, botando banca de tal, despertando os olhares das pretinhas nas escolas noturnas. E sempre a conseqüência inevitável, os números constantes nas pesquisas demográficas, as contagens populacionais aumentando estrondorosamente a cada ano, chamando a atenção para os filhos que não param de nascer nas zonas mais pobres.

O que para alguns é burrice, falta de ambição destes “crioulos burros que tem mais é que quebrar a cabeça e se embuchar até explodir”, para nós sempre foi o caminho natural das coisas. O curto trecho entre as pretinhas seduzidas, os beijos e agarramentos em frente ao portão que já não nos são suficientes, o sexo sem maiores preocupações, os rebentos inevitáveis e um emprego subalterno – a casa que vai continuar no subúrbio, a família que vai se formar no subúrbio, os cães que continuaremos a enxotar no subúrbio, os dias que nos devorarão no subúrbio.

Houve um tempo em que os negros usavam cabelo black power. Armavam a coisa com um pente que era chamado de garfo, pois fazia tornar o penteado o mais simétrico possível, em sua perfeita esfericidade. E isto acontecia aos puxões, trazendo o cabelo que se formava em maçarocas para o que seriam as “paredes”, os limites da esfera: era para o ar que o cabelo era repuxado, tornando o poder negro simbolizado por uma esfera capilar que os enchia de orgulho por sua plenitude e perfeita organização digna dos mais avançados estudos geométrico-espacial. Tal penteado era freqüentemente adornado por longas costeletas que se abriam até debaixo das orelhas, quase tocando as pontas do inevitável bigode – outro freqüente recurso que contribuía para uma imagem pré-concebida, uma noção mais ou menos igual que todos tinham de si próprio, portando-se, esteticamente, como esperavam que um negro se portasse.

Antigamente, todos os negros tinham uma idéia mais ou menos concebida de até onde deveriam chegar. Era quase sempre até onde os brancos nos permitiam.

Hoje, dizem que nós já não conhecemos mais o nosso lugar.

Publicado originalmente no Simplicíssimo.