27 dezembro 2004

Um recorrente continho de Natal. Só pela tradição.


Conto fora de época

“Quase sempre era nóis quatro, se amontuano debaixo dos compensado. Quando Virgílio ganhou condicional, aí sim que a coisa apertou!”
Irvina Soares, “Tábua de Compensado”.

João chega em casa e hesita um instante antes de entrar porta adentro. Mesmo a casa sendo sua, pensa em bater na madeira de compensado, pedindo licença, tão intruso e mal-vindo se sente. Pensa isto por que vem de mãos vazias. João retorna para casa, é final do dia e pela primeira vez presta atenção de verdade na tabuinha para limpar os pés na porta do barraco. “Que porra, pra quê isto?”. João, profundamente perdido. De cara com o mundo, nenhum pila no bolso, sabe que vai ter que olhar as carinhas sujas dos seus filhos e inventar alguma desculpa que possa livrá-lo de vergonha maior do que já é a de chegar em casa em noite de natal e não ter merda nenhuma para lhes dar. Por isso, João hesita. Sente o cheiro de feijão que Joana cozinhou. Nada de diferente, nenhuma ceia especial, o feijão é o mesmo de todos os dias. João acha que cabe dar graças a Deus. Talvez uma lingüicinha ou pedacinho de costela Joana tenha conseguido colocar. João, na verdade, não se importa. Triste é ver os moleques, tudo faceiro olhando pras propaganda de TV e achando algum encanto naquilo. TV de merda. Propaganda de merda. Gente que faz as propaganda de merda. João sabe que não adianta ficar se enrolando na frente da porta - ou entra ou volta pelo mesmo caminho por onde veio e vai dormir na obra: aqueles merda. Nem em noite de natal pra soltarem um adiantado. A vida é uma merda, pensa João. Não fosse Joana segurar a barra em casa, com os moleque e tava fodido. Joana é bacana, João pensa. Os moleque, também. O menor é engraçado, faz umas cara esquisita quando chora, e João gosta dele. Gosta dos outros, também. João pensa que a vida só não é mais merda por causa deles. João não quer se emocionar em noite de natal. Tem medo que apareça algum cineasta e queira fazer um documentário com ele. Gente pobre chorando sempre dá uma ótima cena de documentário, principalmente quando filmado em película. No natal, então, pra passar com música de fundo emocionante - tipo Gloria Stefan - é batata que vai fazer os ricos em casa se emocionarem e prometerem ser mais humanos ano que vem. Isto não é João que pensa. João ainda decide se vai levar pra dentro aquela boneca sem um braço que acaba de ver na porta do barraco do Adailto. João espera mais um tempo na porta, pra falar a verdade.