20 dezembro 2004

Você assiste com facilidade e prazer a um filme que, mesmo com um argumento que pareceria banal, consegue explorar facetas menos previsíveis, dando predileção à tensão decorrente da situação (e aí, alcançando sua verossimilhança) e não querendo soar como apenas mais um daqueles thrillers onde você já sabe onde toda a história vai dar, e nos quais os personagens são rasos como pires. Eis o grande trunfo de Refém de uma Vida (The Clearing, EUA, 2004): a presença incontestável de ótimos atores que não parecem feitos de plásticos e cujo interpretação não distoa do que ocorreria de maneira semelhante em uma situação real. Por isso é mais psicológico do que físico o jogo de gato e rato que se estabelece entre Wayne Hayes (Robert Redford) e o inseguro Arnold Mack (Willem Dafoe). Quando o personagem de Redford, um executivo de sucesso, é seqüestrado pelo seu ex-empregado interpretado por Dafoe, se estabelecem duas tramas ocorrendo paralelamente no mesmo filme: uma é o embate de diálogos entre o homem de sucesso, executivo que se fez por si próprio e o amargurado subalterno demitido, frustrado com sua vida medíocre – não poupada em descrições de sua vida patética como morador da casa do sogro, uma casa de “pessoas desapontadas”. A outra trama ocorre mostrando as conseqüências de seu desaparecimento e o impacto na vida de sua esposa, Eileen (Helen Mirren), com quem é casado há mais de 30 anos.

A situação exposta no filme serve como pretexto para uma série de afirmações de verdades a respeito dos personagens que se encontravam escamoteadas. São diálogos e situações de pressão que acontecem para elevar ao grau máximo o aparecimento de imperfeições em um casamento que desde o princípio nos mostra cônjuges distantes, ainda que acostumados à rotina, definitivamente acomodados. É um acerto de contas o que se estabelece entre Arnold e Wayne, ainda que este último se considere sem absolutamente nada para justificar. É Arnold a figura fraca, um legítimo perdedor que se contenta com pequenas vitórias em diálogos afiados com Wayne, um personagem com mais motivações do que as que parecem somente quando no começo do filme. E conforme os dois vão caminhando mato adentro, em direção à cabana onde Arnold deveria deixar Wayne, vão se acirrando os ânimos, elevando-se uma mágoa de cobranças, aguçando-se um embate entre classes sociais.

O drama de Eileen é outro: a reabertura de feridas já suficientemente dolorosas no passado, a gradual revelação de uma vida paralela do marido, um sofrimento de uma personagem sozinha, centro de segurança que tenta inutilmente distanciar o casal de filhos já crescidos de verdades que os fariam ter ainda maior rancor do pai. Tudo isto e ainda gerenciando a negociação com os seqüestradores, suportando a necessidade invasiva de agentes federais em sua casa, a levantar pontos detalhados de seus segredos.

Refém de uma Vida não requer manual de instruções de como assistir thrillers. Foge da padronização ao humanizar personagens que deveriam trazer estereótipos do seqüestrador vil e com motivações simplesmente materiais, ao envolver com imperfeições a vítima e mesmo assim não destituir nenhum deles de suas próprias fundamentações, sofrimentos e ambigüidades humanas.