17 janeiro 2005

Concessões demais

Há, sim, nestes tempos de “retomada”, toda uma condescendência com o cinema nacional. Há, é verdade, uma expectativa muito grande em relação a Jorge Furtado. Uma expectativa que, mesmo na estréia do seu terceiro longa, não se aplaca. Desde “Ilha das Flores” (e tal filme parece e será sempre referência para quando se falar de alguma nova produção de Furtado), se esperava a grande estréia de Furtado em longa metragem. Que veio (muito) modestamente, com seu “Houve uma Vez Dois Verões”, trama praiana, extremamente juvenil e tão pouco pretensiosa que dividia opiniões. Rodada em vídeo digital – e com aquela cara de vídeo digital demais (que por vezes pode parecer uma sacada genial, e, por outras, tosquice) – câmera na mão e tal, era uma comédia simples, engraçadinha, divertida... Muitos foram os adjetivos, as concessões meio “afago na cabeça”, mas a grande verdade é que se aguardava “a grande estréia” de Furtado no longa. “Houve” parecia troco de produção. Sobra de dinheiro enquanto “O Homem que Copiava” não chegava à grande tela.

Quando “O Homem que Copiava” estreou, é que se viu um bom Jorge Furtado. Em “O Homem” Furtado nos presenteava com uma trama ágil, uma história muito original e que poderia ceder espaço a debates diversos sobre a fragmentação tanto das informações que recebemos quanto acerca do universo de influências à nossa volta – e tudo isto sem ceder aos pedantismos do politicamente correto. “O Homem que Copiava”, com as devidas referências herdadas de “Ilha das Flores”, é Jorge Furtado em grande estilo.

O que faz parecer natural que esperássemos nesta sua terceira incursão pelo longa metragem uma superação. E não é que “Meu Tio Matou um Cara” seja ruim. Não é. É extremamente acessível, popular e (novamente) juvenil. Serve de maneira eficaz ao propósito de encantar os adolescentes, tem as reviravoltas já típicas da narrativa de Furtado e prima pela qualidade em muitos pontos onde os filmes de Furtado costumam primar. A começar pela montagem de Giba Assis Brasil, ágil ao extremo e de um grande capricho. A trilha sonora é outro ponto muito positivo – e não só Caetano Veloso cantando a música de Nei Lisboa. Por isso pode parecer até má vontade não se encantar com um filme nacional como “Meu Tio Matou um Cara” quando estamos acostumados a consumir tanto lixo hollywoodiano, tanto produto estrangeiro de péssima qualidade. Ainda mais quando o filme parece ter servido tanto aos propósitos de realização de seu diretor. Furtado é um dos bons realizadores nacionais que não acham que o filme deva servir a uma função social: o divertimento pelo divertimento também é importante. Nada de debates sobre a cosmética da fome, a apropriação do discurso dos desvalidos. Não, o que temos aqui é cinema pop até a medula, elenco jovem, trama sem grande profundidade e conseqüências.

A falha, para mim, está nos detalhes. Desde a cena inicial, quando o personagem de Lázaro Ramos, Éder, (o tio em questão, com um personagem idiota em excesso, não há a menor nuance que o livre por um segundo deste rótulo) chega à casa de seu irmão (Ailton Graça) e cunhada (Dira Paes), contando que matou um cara, ficamos conhecendo Duca (Darlan Cunha, de “Cidade de Deus”), o protagonista e narrador da história (e, tal qual “O Homem que Copiava”, temos, novamente, o uso de voice off para nos situar nos detalhes; um recurso que parece medo de não contar bem a história bem sem o auxílio narrativo do personagem). Já nesta introdução sabemos o quanto Duca é indiferente, tão blasé que não esboça nem mesmo reação de espanto quando ouve o enunciado de seu tio. O tio é só um idiota que matou um cara. E vai continuar sendo o idiota que armou a confusão, mas uma muleta que servirá aos propósitos de Duca: bancar o detetive e, junto de seu alvo amoroso, Isa (a talentosa Sophia Reis), tentar desvendar alguns pontos meio nebulosos da história do tio.

E é isto: trama juvenil, história detetivesca e o antagonista amoroso (Renan Gioelli, boa estréia). Para contar uma história de amor, o fato de o tio ter matado um cara é somente pano de fundo. Não, não estou falando de aprofundamentos morais, julgamento de caráter. Continuo achando ótimo o não-julgamento de Jorge Furtado em relação aos seus personagens, o fim do alto contraste entre bem e mal, mocinhos e bandidos. Pessoas boas fazem coisas erradas e pessoas más fazem coisas boas na vida real. O que acontece é uma concessão exagerada que, por se tratar de uma comédia, se faz à verossimilhança. Por vezes é um problema de interpretação (Darlan Cunha parece com preguiça de dizer seu texto, de rir como riria um jovem de sua idade, de se comportar de maneira natural, com as preocupações que, na realidade, um adolescente teria), mas por vezes, também, são estereótipos em excesso (Soraya, a personagem de Deborah Secco, namorada do tio e estopim da confusão, é somente uma gostosa. Ponto.) que deixam aquela sensação de que algo faltou.

Então, pela condescendência natural que se costuma ter com o nosso cinema, poderia, sim, se dizer que são pontos que, de uma maneira grosseira não atrapalham o bom resultado final gerado por “Meu Tio Matou um Cara”. Poderia, sim. Dizer que, no final das contas, é boa diversão para a juventude estupidificada com produções de Vin Diesel e etc. Mas aí não seria um elogio. Seria patriotismo, amor ao que é nosso porque é nosso. E, por Furtado sempre nos dar a sensação de que seu talento é capaz de mais é que nos acostumamos a querer sempre mais dele.