10 janeiro 2005

A Lenda do Tesouro Perdido, (National Treasure, 2004)

Entretenimento facilmente esquecível é só o que se tem assistindo à A Lenda do Tesouro Perdido, (National Treasure, 2004) de Jon Turteltaub. Ainda que visivelmente moldado no formato das aventuras de Indiana Jones e mesmo surgindo agora, nas férias de verão – um momento extremamente propício para tal gênero – este filme, situado no meio do caminho entre os clássicos de Steven Spielberg, e já prenunciando pelo seu caráter investigativo-inverossímil, O Código Da Vinci (que já está sendo adaptado para o cinema, com Ron Howard na direção e Tom Hanks à frente do elenco), é uma daquelas aventuras com um roteiro pretensamente intrincado, mas com uma trama sem pé nem cabeça que acaba se sustentando somente pelos seus momentos de ação propriamente dita.

Nicolas Cage (cuja interpretação tão inexpressiva nos faz pensar que o ator perdeu os movimentos do rosto) é o aventureiro arqueólogo Benjamin Franklin Gates que na infância tem revelada por seu avô (Christopher Plummer) a história de um lendário tesouro perdido que a família Gates vem procurando desde o século XIX. A informação que se tem é que o tesouro foi escondido pelos fundadores dos Estados Unidos em uma câmara subterrânea. Benjamin cresce obstinado por descobrir as pistas que levam ao tal tesouro, o que acaba levando-o até “o” Charlotte, um barco que congelou na costa do Pólo. Estamos no prólogo do filme, os primeiros quinze ou vinte minutos, e todos os personagens aí são devidamente apresentados: temos o herói imbatível (Cage), seu ajudante-fiel-e-fazedor-de-piadas-sem-graça (o ator Justin Bartha, com uma versão masculina da voz irritante de Jennifer Tilly) e o vilão-medonho-que-era-amigo-do-herói-imbatível, Ian (Sean Bean, de O Senhor dos Anéis), um bandido tão sem carisma quanto o próprio protagonista.

Como no barco descobrem que a próxima pista leva até a Declaração da Independência dos Estados Unidos, o que temos a partir daí é a necessidade que o vilão tem de roubar – claro – a Declaração (e não importa quão bem guardada ela esteja), e a necessidade de Ben de protegê-la. Nem que para isso tenha que também – claro – roubá-la antes do bandido. As atitudes do herói são tão prontamente fundamentadas que daí em diante temos a figura feminina da Dra. Abigail Chase (Diane Kruger), provavelmente a personagem mais inverossímil do filme, que para proteger a Declaração, resolve acompanhar Ben e seu comparsa até descobrirem que mistério, afinal, esconde a Declaração dos Estados Unidos.

Uma pista leva a outra e as pistas achadas pelos mocinhos são devidamente seguidas pelos vilões, é questão de tempo até que descubramos se o “maior tesouro de todos” existe ou é apenas mais uma lenda. Como o interesse de Ben é honrar a crença de sua família, que sempre foi ridicularizada nos meios científicos, na existência de tal tesouro (ainda que tenha um desesperançado pai interpretado por John Voight, fazendo o mesmo pai que interpretou em Tomb Raider) e alcançar o sucesso pessoal com tal descoberta, ele não mede esforços para conseguir tal empreitada. Fugindo de bandidos e da polícia (representada por um Harvey Keitel em contenção de recursos dramáticos, tirando uma onda para pagar as contas do final do mês), Ben triunfa pista após pista para encontrar este “incalculável” tesouro, acumulado pelos Cavaleiros Templários durante as cruzadas e escondido pelos maçons, seus descendentes. Mesmo que o tesouro tenha sido enviado para a Europa para evitar a pilhagem dos ingleses, é lógico que ele tinha que voltar para os Estados Unidos e facilitar a busca de Ben e seus comparsas.

Como o lance do produtor Jerry Bruckheimer, é fazer dinheiro – e é óbvio que mesmo com tal trama bobinha o conseguiu, ainda mais chancelado pela Disney – não é este filme que vai ser a vergonha de sua carreira. Alguém que já produziu bombas como Con Air e escapou ileso há de continuar sua profícua missão de gerar diversão fácil e descerebrada para toda a família.