12 janeiro 2005

Meus hábitos pessoais se tornaram uma maldita sucessão de links. Habituado por esta facilidade(?) oferecida pela internet, fazendo com que por vezes não consigamos de verdade nos concentrar em uma só matéria, texto, notícia jornalística oferecida por um site, ultimamente venho adquirindo o hábito de linkar as coisas mais prosaicas do meu cotidiano – e me mover pela casa conforme a necessidade de se “acessar” o material. Se na frente do computador, pretendendo ler algum texto de um site qualquer, sobre cinema, literatura, volta e meia me vejo pesquisando no Google palavras de maior aprofundamento ao tema, cada vez mais me dou conta do quanto todos os textos, as músicas, os jornais, revistas, enfim, todas as mídias que estão à minha disposição por vezes me parecem tão insuficientes para aplacar esta quase obsessão pela informação total.

O universo interminável que forma a web se tornou uma profusão de conhecimento à disposição, um convite inegável à especialização. Se em uma página eletrônica de cinema leio uma crítica desfavorável sobre um filme, lá rumo eu para outro site similar para comparar as resenhas, confrontar jornalistas, apontar detalhes comuns. Se a busca é sobre um músico qualquer, é somente uma questão de tempo até escarafunchar os cantos diversos deste mundo virtual atrás de um MP3, uma capa de disco do dito cujo. Não há mais o contentamento pelo que se tem de imediato. O texto na revista não me serve sozinho. É preciso ler a revista concorrente, compara como os dois textos foram escritos. E é uma sucessão sem fim de correlações, “hiperlinkagens” que mais do que garantir aprofundamento acabam me enervando, enfiando-me numa barafunda de insatisfação, da busca do mais – o “mais” desnecessário no entanto, o “mais’ obsessivo. E muitas vezes a confusão só gera distanciamento. Qualquer informação por mais banal que seja ganha ares de super-importância somente pelo encadeamento imediato com outra qualquer. Volta e meia me vejo no site de alguma editora para saber quais os livros de determinado autor eles têm em seu catálogo. Ocorre que uma outra capa interessante me chama a atenção e lá estou eu descobrindo um autor novo (o que muitas vezes gera surpresas agradáveis; no entanto, na maioria delas só me causa desatenção, perda de foco). E para as coisas mais prosaicas da vida tais características vêm se repetindo. Pensando em chegar em casa para escutar o último disco do Nei Lisboa, uma melodia de Max de Castro que estava em minha memória me fez inserir o seu disco primeiro – e, como Max de Castro tem um estilo que é uma vertente da black music, lá estava eu catando o Jamiroquai para ouvir um funk logo mais.

Lendo o jornal enquanto ouvia música (no final das contas, consegui colocar o CD do Nei Lisboa e ouvi-lo por inteiro...), li sobre um artista que provavelmente se apresentará em Porto Alegre. Eis que me recordo que jornal da semana passada(!) havia um artigo qualquer sobre o mesmo artista. E lá fui eu na cesta de jornais antigos à cata de tal exemplar. Achado o mesmo, não é que aparece uma matéria sobre o lançamento em DVD de “Anti-Herói Americano”(American Splendor,EUA, 2003)? Este documentário sobre Harvey Pekar – roteirista da clássica série norte-americana de quadrinhos “American Splendor”, e amigo de Robert Crumb, o primeiro a ilustrar suas histórias – me faz lembrar de procurar o álbum de Crumb que eu tenho em algum vão da estante. E, lembrando-me de ter uma cópia em Divx do filme sobre Pekar, lá fui eu à cata dele, só para garantir que eu o tinha, mesmo. Lógico que no porta CD’s havia uma porção de outros filmes, daí me ocorreu por que, mesmo o tendo, não assisti ainda a Elephant. Envolvido com os filmes, acabei voltando ao jornal para ler obre os lançamentos recentes em DVD. E – eis link de correlação mais misteriosa! – que lendo sobre um filme do qual não tinha nenhuma informação (“Dez”, de Abbas Kiarostami), a seguinte frase na resenha: “A personagem vivida pela atriz Mania Akbari conversa, enquanto guia pelas ruas de Teerã, com outras mulheres no banco ao lado, como uma prostituta, uma noiva rejeitada e uma senhora que está a caminho do mausoléu onde irá rezar. Aos poucos, tais diálogos vão desenhando um perfil da condição feminina no Irã de hoje.” me faz lembrar, não sei por que cargas d’água, de Jonh Fante! E entre “Espere a Primavera, Bandini”, “Pergunte ao Pó”, “Sonhos de Bunker Hill”, recordar-me que ainda não li “1993 Foi um Ano Ruim”.

Quando a coisa começou a caminhar por aí, me mostrando este encadeamento tão exagerado e, à principio, muito sutil de conexão (com um daqueles programas ultra-sofisticados que os sites de compras têm à sua disposição para lhe oferecer produtos cujo paralelismo com seus gostos pessoais é fruto de uma série de informações acumuladas sobre os seus hábitos de compras) resolvi por um instante de silêncio, um distanciamento mais que necessário de todas as coisas.

E a contemplação do nada foi a grande salvação do meu dia.