07 janeiro 2005

"Pode haver guerra, fanatismo e conflito em qualquer lugar, mas sempre haverá um garoto tentando observar uma viúva por uma fresta enquanto ela tira a roupa".
Amós Oz

Se as Lojas Americanas realmente se empenhassem [e eu me refiro às lojas reais, não à virtual - e falo aqui de Porto Alegre, já que não sei como funcionam nos outros estados] iria começar a dar dor de cabeça em muitas pequenas livrarias se começasse a vender livros. Digo isto porque neste fim de semana passando por uma das lojas, vi uma daquelas liquidações - que geralmente envolvem CD's e DVD's [e que, na maioria das vezes oferecem "Ritmo Quente", "Amnésia", vídeos músicais do Motörhead e Donna Summer e desenhos animados toscos aos milhares] - e desta vez eles tinham livros em oferta, a partir de R$9,90(!).

Fiquei um considerável tempo procurando alguma coisa que prestasse, mas as opções não divergiam em sua maioria de livros de auto ajuda, espíritas e quetais. Entre uns romances canhestros, umas dezenas de exemplares da "Fantástica História do Silvio Santos", um romance escrito pelo Ethan Hawke, consegui achar - único exemplar - um livro de Amós Oz: O mesmo mar, publicado aqui pela Cia. das Letras, novo, pela bagatela de R$9,90. No livro, o autor mistura prosa e poesia para contar sobre o cotidiano de uns poucos personagens, tomados a esmo da sociedade que observa em seu país (Israel): um pai viúvo, um filho desgarrado, uma jovem desorientada e sexy, um marceneiro que ama música erudita, um grego que traz os mortos ao mundo dos vivos.

(O trecho abaixo está diagramado da mesma forma que no livro, respeitando a composição poética do texto do autor:)
O mesmo mar
Amós Oz
Companhia das Letras
Tradução do hebraico: Milton Lando

Depois de uns três anos ficou claro que ela nem ao menos podia
lhe dar filhos. O
viúvo, desconsolado, divorciou-se e casou-se com a prima dela.
Devido à
vergonha e ao sofrimento por que estava passando, seus pais lhe
deram
permissão para ir ao encontro do irmão e da cunhada que tinham
emigrado para
Israel, e de viver lá sob a supervisão do casal. O irmão alugou-lhe
um sótão em Bat Yam e arranjou um trabalho numa oficina de
costura. O dinheiro
que recebera no divórcio, ele depositou numa poupança para ela.
E assim,
aos vinte anos de idade, voltou a ser uma moça solteira. Gostava de
ficar
sozinha a maior parte do tempo. O irmão e a cunhada ficavam de
olho, mas
na verdade era desnecessário. Às vezes tomava conta dos filhos
deles, à noite, às
vezes saía com alguém, ia a um café ou ao cinema, sem se envolver:
nãogostava da idéia de ser deitada de costas de novo, com a camisola levantada, e
sabia acalmar sozinha o seu corpo. Na oficina de costura era considerada uma
trabalhadora séria e responsável e, de modo geral, uma moça encantadora.
Uma vez foi ao cinema com um jovem tranqüilo, sensato, um contador,
parente distante da sua cunhada. Quando ele a acompanhou até
a casa, pediu-lhe
desculpas por nem sequer tentar namorar com ela, não porque,
Deus me
livre, não a achasse atraente, mas, pelo contrário, porque não
saberia comoagir. Já tinha acontecido de moças caçoarem dele por causa disso,
explicou,
e até ria um pouquinho de si mesmo, mas era a pura verdade.
Ao ouvir isso ela sentiu de repente na nuca, nas raízes dos cabelos,
uma
espécie de agradável aspereza interna, que irradiou calor para os
ombros e
axilas, e foi por isso que sugeriu, Vamos nos encontrar de novo na
terça-feira,
oito da noite. Alegre, Albert respondeu: Com todo o prazer.