17 janeiro 2005

A rebelião

Eu logo suspeitei que a horda ensandecida ansiava pela rebelião. Mesmo analisando a situação com o distanciamento crítico que o dia de hoje me possibilita – e mesmo considerando que o calor pudesse ser mais um elemento a ser utilizado como pretexto para as ações que então se sucederam, posso crer que havia mais que desespero nos corpos e mentes daquele bando desvairado que tomou o controle do coletivo na sexta-feira à noite. Havia o puro desejo maléfico da baderna, o gosto pelo descontrole, o ensejo pela anarquia completa. Que veio se concretizando com a sutileza que somente os mais ardilosos planos são capazes. Como que ensaiados por um cântico obscuro, embalados por um descompasso emocional, mas devidamente unidos na sua ilógica racionalidade, o ônibus contava dez minutos ou mais sem deslocar-se do ponto da João Pessoa, a recolher como que infinitamente dezenas de pessoas que insistiam em se socar para dentro do veículo, ansiosos pelo contato puro e suarento de seus corpos junto aos corpos de outros. A massa que lá dentro já se espremia de maneira pouco confortável começou os gritos de protesto – e aqui cabe bem fazer uma observação que logo me ocorreu, tão bem olhei para a figura que se colocava prostrada junto ao meu banco, cavando um dos poucos espaços disponíveis e que poderiam, enjambradamente, sustentar sua pesada sacola com seus elementos metálicos barulhentos: foi esta gorda de bigode a primeira a dar início ao ódio espasmódico que de todos começou a tomar conta – reclamando pela demora do ônibus em manter-se parado, recolhendo os desejosos passageiros acima da sua capacidade física. Alheios a qualquer sentimento de solidariedade, os poucos sortudos que já se apertavam dentro do coletivo manifestavam-se acintosamente contra a presença de qualquer corpo a mais a dividir o – segundo eles – ínfimo espaço que lhes restava. Então daí, e sendo perfeitamente inevitável e previsível, surgiu a manifestação de ambos os lados. E cada um, segundo suas próprias razões, entoavam reclamações, defendendo, respectivamente, seu desejo de entrar e, ao extremo, seu desejo de que não se forçasse mais nenhum corpo ao já combalido veículo.

A gorda suava aos cântaros e ainda assim se embalava ruidosamente, destilando tanta ira que temi pelo banco de fibra onde ela se agarrava sofregamente a cada vez que parecia crer que seus gritos serviriam para engrossar o cordão dos desejosos de que o ônibus seguisse seu rumo. Um homenzinho de camisa regata gritava que aquilo era uma “pouca vergonha” e marcava compassadamente seu protesto com batidas no vidro da porta de trás, fazendo com o que o cobrador ameaçasse se levantar para acabar com seu manifesto. Tanto barulho se fez do lado de dentro que o motorista – embora não verbalizando tal decisão – achou por bem tocar o carro, deixando plantados e esperando desanimadamente o próximo veículo, que com esperança viria, as dezenas de pessoas prostradas no ponto.

Com os ânimos já devidamente acirrados, via-se que a viagem não poderia seguir de maneira calma, uma vez que se iniciava um incensado debate sobre os rumos do transporte coletivo na capital e a desconsideração dos governantes com a população de baixo poder aquisitivo. Era como uma panela de pressão, um vulcão se preparando para entrar em erupção, a certeza de que ninguém se dava por satisfeito, o desejo borbulhante de externar a indignação através de manifestos físicos, gritos de ódio, ecos comunitário de desagrado. Foi mais ou menos próximo à Cavalhada que começaram os grunhidos, os gritos de insatisfação pelo calor que se fazia demasiado intenso entre os passageiros. Um grupo se encarregava de elaborar a trilha sonora daquele cenário de fatídico embate: a batucada, um grande partido-alto executado ao vivo era com certeza um dos elementos a rechear os ânimos de entusiasmo, a evocar a violenta manifestação popular física como único e inevitável meio de expressão da insatisfação coletiva. Sob os gritos pouco inspirados e, confesso, de uma musicalidade parca, a frase “ão, ão, ão/com calor não dá não!” formava o cântico de guerra daquele povo, seu convite ao embate. Como o ônibus se tratava de um modelo que, em prioridade, deveria oferecer – como explicitado em inscrições claras e propagandísticas no seu exterior – ar condicionado ao seu público pagante e como, sob a constatação de mais de um conviva, o aparelho não estava cumprindo com sua utilidade (já que um vento morno era a única coisa emitida pelos seus orifícios), criou-se uma situação de incontestável desagrado. As janelas previamente trancadas com um dispositivo que impedia sua abertura facilitada começaram a se tornar baças, os suores empapavam as camisas, os passageiros resvalavam uns nos outros pelo óleo que tomava conta de suas peles e já não se respirava direito com o ar que era trocado irmamente entre os presentes daquele forçado e pouco ortodoxo spa, vamos assim dizer.

Um estupor de ódio tomou conta primeiramente dos passageiros que se mantinham mais ao fundo. Não sei se pela proximidade com o grupo musical improvisado que começava a compor letras de cada vez menos intricada inventividade (pérolas do tipo “ão, ão, ão/motorista é barrão!”, “o calor é desgraçado/liga o ar condicionado!”, “posso ser chinelo e feio/mas pego as mina de recheio!” – esta, admito, completamente alheia a manifestação genuína até então iniciada – e baixando o nível em demasia em “uh, uh, uh/tá suando o meu c*!”, mesmo considerando o fato deste último ter sido entoado em ritmo de afoxé), estes foram os primeiros a usar da força física para fazer valer os seus direitos. Como a abertura da clarabóia, que deveria trazer um tanto de frescor para os passageiros, não se mostrou suficiente para aplacar o quentume epidérmico de todos, um anão foi devidamente alçado por um senhor de porte avantajado e com seus pequeninos, porém potentes braços, arrancou a tampa com um forte empurrão, fazendo com que a mesma voasse por cima do ônibus e acertasse o táxi-lotação que vinha logo atrás de nós. Embora o ônibus estivesse já a um tempo considerável oscilando nervosamente para os lados, deve ter sido exatamente neste momento – quando a tampa da clarabóia voou, atingindo o vidro da lotação, cegando o motorista que foi obrigado a desviar furiosamente para a calçada atropelando uma senhora que se equilibrava com dificuldade em um andador – que os motoristas que vinham atrás se deram conta de que algo inusitado e potencialmente perigoso se passava no interior daquele coletivo. Considerando – não sei sob que parâmetros – uma espécie de vitória alcançada o arremesso daquela tampa de clarabóia e o conseqüente banzé que se instalou no trânsito parcialmente congestionado atrás de nós, os passageiros da área mais suscetível ao agitamento nervoso se tomaram de ainda mais ânimo e começaram a fazer uso de objetos contundentes para forçar a abertura da porta traseira do veículo. O entusiasmado conjunto musical, com os dotes vocais renovados, era como um coro grego, um narrador melódico a entoar a epopéia de suor, ódio e gritaria que se aglutinava dentro daquele ônibus.

A esta altura dos acontecimentos, o mesmo anão que havia se empoleirado nos ombros do avantajado senhor para romper com a clarabóia, já havia se deslocado – como um símio, usando somente de suas mãos para percorrer através das barras superiores e por cima das cabeças dos outros viajantes, o caminho que o separava do cobrador. Este, que tentava discar d seu telefone celular um número que imaginei ser de emergência, foi devidamente inibido em seu intento quando o anão utilizou-se do conhecimento de alguma arte marcial e imobilizou-o com suas curtas perninhas, fazendo com que o pobre cobrador desabasse por cima da idosa que se mantinha apavorada no banco da frente. O grupo de trás já havia conseguido emanar seu descontentamento e violência para vários outros passageiros, que se uniram para o tumulto generalizado. Descoberta de maneira forçada a maneira para destrancar os dispositivos de segurança que mantinham as janelas trancadas, as mesmas se viram arregaçadas e alguns viajantes mais esbaforidos fizeram uso das saídas de emergências, fazendo com que as janelas fossem abertas violentamente, sendo arremessadas sob os outros veículos que transitavam ao lado do nosso. Uma trilha de horror se fazia pela terceira perimetral: cacos de vidro, estilhaços plásticos e suor transbordante mostravam o caminho que levava ao inferno.

O inferno era o ônibus lotado, com suas janelas arrancadas, suas clarabóias reduzidas a nada, uma horda ensandecida e de sovaco molhado bradando impropérios contra os dias quentes e pulando sobre o piso do ônibus como que possuídos por um espírito maligno. O motorista já não parava mais e não tinha como sequer pedir ajuda, coagido por uma velha com uma sombrinha pontiaguda a ameaçá-lo de morte. Um senhor engravatado começou a gritar por calma, alguém berrou “tira este paletó, tá um calor dos inferno!” e arremessaram-lhe uma bergamota na cabeça. Ele ainda ensaiou um discurso pomponiano, mas foi interceptado em seu intento por uma caixa de panela de pressão que o fez desabar sobre uma senhora que amamentava, enquanto a gorda de bigode se agitava, em êxtase frenético. As crianças gritavam em horror e deslizavam por baixo das pernas dos passageiros, aturdidas pela velocidade com que o ônibus seguia. Um velho cego no banco ao lado do motorista berrava, ensandecido “o horror! o horror!”, enquanto o motorista realizava manobras cada vez mais labirínticas por entre os carros que formavam obstáculos à sua frente. Uma massa disforme era o que formava o bando de passageiros que pulava em ritmos aleatórios, bradando em fúria, como torcidas de times de futebol, batendo-se uns nos outros e derramando em si mesmos todos os líquidos que tinham em seu poder. Assim, o suor misturava-se a suco de laranja, água, café frio e coca-cola morna e civilidade era um conceito que não devia passar pela cabeça de ninguém àquela hora.

Sei que foi na hora em que o cobrador conseguiu se livrar da chave de perna do anão, foi exatamente nesta hora, em que ele se revestiu de força e arremessou o anão contra o pára-brisa do ônibus e este ricocheteou contra o motorista que perdeu o controle do veículo (e o improvisado conjunto musical ao fundo entôou “deu, deu, deu/o anãozinho se fodeu!”), foi aí que eu vi que a baderna realmente iria começar.

Publicado originalmente no Simplicíssimo.