25 fevereiro 2005

[Como este texto reapareceu lá no Duplipensar na seção "Vale a pena Ler de Novo", tive que me render à atualidade do assunto - ou à falta de novos assuntos? - e reapresentá-lo aqui:]
O tio Adagobaldo e os metrossexuais
Publicado em 15.12.2003 - Duplipensar


Meu tio Adagobaldo é um sujeito das antigas, sem meias-palavras. Quando eu falei para ele sobre os tais de metrossexuais, ele me olhou meio de canto, como quem diz “sei...” e riu lá, do jeito dele. De um tempo em que só se passava pomada minâncora no sovaco, para conter os suores mais agressivos, meu tio se mostra um pouco perturbado quando falo para ele que, sim, hoje parece que é moda homens que gastam mais de mil reais mensais em produtos estéticos importados, e sabem muito bem qual o último lançamento da grife Ralph Lauren e dos sapatos de um tal Ricardo Almeida.

Mas meu tio é um velho sábio, também. Tem um conhecimento que muitos desconhecem a respeito das invencionices da moda, os apelos do consumo. Me pergunta se isto não é mais um “mote de marketing”. É, meu tio é nego véio, mas, por vezes, chega a surpreender a mim mesmo com seus conhecimentos parcos porém úteis sobre as inovações do mundo empreendedor! Eu digo que é bem capaz de ser, sim, um mote de marketing. E se não for, com certeza está sendo muito bem aproveitado pelos interessados neste campo. Se não, vejamos: quem mais - senão as empresas de cosméticos, produtos para cabelos, salões de estéticas, spas, grifes de roupas, de sapatos, lojas de objetos de design, editoras de livros de culinária e arte, restaurantes chiques, livrarias descolês, cirurgiões plásticos e, conseqüentemente, agências de publicidade – estarão com os sorrisos até as orelhas pelo grande filão que se abre com mais esta “novidade” comportamental contemporânea? Sim, por que os metrossexuais são estes: consumidores de produtos para melhorar sua aparência, com demoradas massagens de cremes esfoliantes e outros quetais, dedicados aficionados por cortes elaborados de cabelos (com direito a mechas e modismos usualmente femininos, como luzes e reflexos e outros biriris que meus burros já não puxam!); acham que se os pneuzinhos adquiridos pelas latas de coca-cola com croquete estão começando a espalhar-se para além dos cós das calças, a melhor saída são sessões de drenagem linfática (!) em renomados salões de estéticas. Spas são a saída mais drástica para quando os quilinhos estão bem além do desejado por estes vaidosos homens.

Tio Adagobaldo sacode a cabeça, descrente de estar ainda vivo para presenciar tantas “modernidades”. Não é que tio Adagobaldo seja um machista, não. É só um homem do seu tempo. Tem dificuldade para admitir que já não há o que não haja nos dias atuais, e que Charles Bronson tenha sido revogado no posto de inspirador das ações masculinas e preterido por David Backham! Quem?, pergunta, aturdido, meu tio. David Beckham, mistura de jogador de futebol e provador de calcinhas de sua mulher. É, meu tio, é o maior símbolo destes tais de metrossexuais. Elabora um corte de cabelo a cada jogo, gasta muita grana com cosméticos e grifes com as quais meu tio nem sonha existir!

A verdade pode ser dura para meu tio Adagobaldo, mas, definitivamente, os tempos são outros! Isto é o que ELES querem, pelo menos! ELES? Quem são ELES?! Todo aquele pessoal arrolado acima, unidos em um grande complô mundial, onde o que vale não é se as mulheres hoje se confundem com que tipo de homem, afinal, estão saindo, mas, sim, as cifras que a provocação de um fenômeno de tal ordem proporciona. Ainda que se leve ao extremo a vaidade dos homens e alguns dêem força para que tal proposta seja levada a sério – afinal, eles se levam a sério, dão entrevista em jornais, com em uma matéria que saiu domingo, dia 30 de novembro na Zero Hora de Porto Alegre – o que eles dizem, é que querem, somente, ser felizes!

Ser feliz é que, afinal, todos queremos. Aderir a práticas impostas por meios que estão interessados na sua grana é outra história. Afinal, os metrossexuais foram inventados, ou sempre existiram? Eles, parece, sempre estiveram por aí: através de colecionadores de sapatos de couro de crocodilo, sujeitos que pintam as unhas de preto e outras cores e dizem que são “fashion”, dedicados cultuadores de peças de design “exclusivo” – e o que se fez foi somente juntar esta manada em grupo, tachar-lhes um rótulo, imediatamente aceito, e, cataplum!, temos um novo fenômeno midiático!

Agora - e meu tio Adagobaldo já sabe disto - é tratar de lucrar em cima! Os produtos que já existiam e que passaram a ser objeto de culto, muito bem, unem o útil ao agradável. Quem não estava na roda, ainda, trata agora de se aproveitar.

Não, não confundamos: metrossexual, segundo os próprios, não morde a fronha. Esta nova categoria é apenas um grande presente para as milhares de indústrias que já têm lucrado em cima da vaidade deste homem do novo século. Uma vaidade ostentada com orgulho e que já vem dando o seu resultado até mesmo em produções de entretenimento. Em breve veremos aqueles calhamaços de livros de auto-ajuda sobre como se tornar um homem com pele mais macia, ou quais os lugares mais descolados para comprar o último lançamento em cremes para manter o pêlo da bunda sedoso. Enquanto estes ainda não vêm, quem aposta de maneira bem-sucedida no mercado é a Sony, com sua nova série “Queer Eye for the Straight Guy” , na qual um grupo de cinco homossexuais, com talentos que passeiam entre a arte culinária, a cultura, o estilo de moda, a decoração, entre outros, devem tornar um sujeito "bronco" em objeto de desejo das mulheres. Para isso, não devem hesitar em re-arranjar todo o guarda-roupa do marmanjo, mandá-lo podar as melenas, cortar o cabelo de dentro do nariz, entre outras peripécias, que, segundo os novos tempos torna-lo-ão mais atrante para as mocinhas que assistem à “Sex and The City”.

O termo "metrossexual" (contração de metropolitano com heteressexual) foi usado pela primeira vez em 1994 pelo escritor gay Mark Simpson, no artigo "Lá vêm os homens do espelho", publicado pelo jornal britânico "The Independent". Logo, uma agência de publicidade – quem mais haveria de ser? – a Euro RSCG, recuperou o termo com uma pesquisa sobre os hábitos masculinos de consumo. O resto da história, é o que estamos presenciando. Portanto, abram-se para os novos tempos! Nem todos precisam ser broncos como o meu tio Adagobaldo. Afinal, sempre existirão os inconformados. Que se há de fazer? Deixe que os machões se revirem em suas covas.

Alessandro Garcia é um cara das antigas. Publicitário e escritor, não vê com tanta surpresa estas modas que surgem diariamente. Articulações “malandrinhas” para vender, e disto ele entende bem. Suas especulações diárias e ficções de toda ordem são despejadas com regularidade tôsca no Suburbana, uma casa de boa família.