07 fevereiro 2005

Não é difícil concluir o porquê dos méritos de Perto Demais (Closer, EUA, 2004). É um dos filmes com diálogos mais ásperos e próximos ao verdadeiro que assisto a muito tempo. Não há concessões para diálogos engraçadinhos e “verdades” de amor, bem como não há personagens donos de certeza todo o tempo, não há conclusões fechadas sobre as relações nos quais os personagens estão envolvidos. O filme compreende as banalidades que afloram em cada relação, a tragédia que cada pequeno gesto se transforma – no entanto, não há julgamentos por parte do diretor. Mike Nichols não quer poupar a personagem da fotógrafa só por que ela é bonitinha e é interpretada por Julia Roberts. Quer somente registrar este interminável caso de análise, de tamanha complexidade que cada história se torna tão diferente uma das outras, cheia de nuances e de peculiaridades tais quais os quatro personagens que são captados por sua câmera hábil. Há o médico solitário (Clive Owen, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), que através de um chat de sacanagem acaba conhecendo e casando-se com a fotógrafa personagem de Julia Roberts, por culpa do escritor apaixonado por ela, um Jude Law não muito à vontade, cujo personagem poderia protagonizar a mais ardente das paixões com ex-stripper interpretada por Natalie Portman (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, simplesmente maravilhosa – não há como não se apaixonar por ela desde a primeira seqüência em que aparece, ao som de “The Bloer’s Daughter”, de Damien Rice).

Mas tudo tem que ser complicado demais, áspero demais, rude demais. Bem como o médico de Clive Owen, uma mistura de marido traído e desesperado que não economiza impropérios para uma Julia Roberts sem saída numa seqüência magnífica.

Perto Demais é, com certeza um dos melhores filmes do ano – e olhe que ele recém começou – e, com certeza um dos grandes romances para ficar para a história. É a certeza definitiva de que os casos de amor e as abordagens sobre eles não devem e não precisam ficar restritas aos chavões de sempre. Nem tudo termina em “eu te amo”, bem como nem todos os finais precisam ser tão convenientemente felizes.