28 fevereiro 2005

Por um previsível clima de suspense

Imaginemos um filme de suspense em que a maioria das cenas é filmada à luz do dia, o elenco é composto por dezenas de pessoas – crianças, jovens e idosos correndo por uma casa, por exemplo –, e estas pessoas, moradoras desta casa, gostam de muita música, ligam a televisão, fazem barulho, conversam em tom normal, não aos sussurros. Os ambientes da casa são todos iluminados, existindo uma luz principal central, não somente pequenos abajures com luzes de 30 watts pelos cantos e velas pelos banheiros. Importante: as crianças não têm olhares macabros quando lhe perguntam o que tem para o jantar, os pais não parecem desejar a morte dos filhos quando dizem “você sabe que mamãe te ama, não é?” e os banheiros podem ter box de acrílico ao invés de convenientes cortinas de plástico transparente baço.

Imaginou?

Pois bem, agora imaginemos que a sua pequena filha perdeu a mãe que se suicidou. O que você faz? Empreende um esforço para que ela se relacione mais com as crianças de sua escola, se apóia na ajuda de uma grande amiga sua da qual sua filha gosta e que se mantém por perto, tenta encher a casa de vocês de alegria, festividades, tornando a rotina diária ainda mais agradável? Ou pensa que a melhor decisão é vender a casa de vocês na cidade e se mudar para o campo, para uma imensa mansão repleta de quartos, no lugar mais ermo possível, longe de todas as pessoas e cercado de mato? Um lugar onde só se ouvem os sons dos grilos e animais do mato, onde você e sua filha jantam no breu, sob a luz de algumas raras luminárias, em um silêncio tão constrangedor que se tem temor até de respirar? Ninguém ouve música, ninguém assiste a um filme na televisão e as conversas são entremeadas somente pelo som da mastigação.

As especulações acima são apenas algumas das que podem fazer parte da Teoria de Análise dos Filmes de Suspense que me ocorreu logo depois de assistir a “Amigo Oculto”, o mais novo filme de Roberto De Niro. Poderíamos entrar em infinitas considerações sobre as escolhas atuais que têm sido feitas pelo ator – outrora protagonista dos maiores clássicos do cinema, tais quais Taxi Driver, Poderoso Chefão II, Era uma vez na América, Touro Indomável, etc – mas seria extremamente irrelevante e não se tardaria a entrar em considerações preconceituosas como julgar as comédias que ele tem feito, apesar de tão bem sucedidas nas bilheterias, filmes menores.

O que me parece mais imediato, no entanto, são escolhas feitas automaticamente pelos personagens destes filmes – e que seguem uma cantilena de repetições de outros filmes anteriores e em outros suspenses que se seguem – e que acabam por estabelecer uma relação de distanciamento maior ainda da realidade; uma inverossimilhança que já começa a causar um estranhamento nos espectadores pela impossibilidade de que fôssemos fazer tais coisas. Daí não tardarem as paródias feitas por comédias zombando de tais detalhes: a mocinha indefesa que caminha para dentro do quarto escuro de maneira tão “destemida”, a criancinha que prefere explorar a infinitude do seu armário macabro ao invés de chamar pelos pais, a recôndita casa no campo de proporções gigantescas que acaba sendo a escolha improvável de uma família de dois integrantes, e por aí vai.

Uma vez que nós ignoremos um tanto (somente para entrar no clima, senão não dá certo) estas escolhas feitas pelos protagonistas, aí é possível se deixar levar pelo desempenho destes atores. Do já citado De Niro, que mesmo se revezando em papéis questionáveis (e alguém pergunta se ele não está mais feliz ganhando muito dinheiro com franquias como Entrando Numa Fria), continua apresentando ótimas atuações em quase tudo o que faz; e da sempre adorável Dakota Fanning (Chamas da Vingança, Uma Lição de Amor), desta vez fazendo uma soturna garotinha que por vezes irrita por sua insolência, mas em breve nos desafia com a profundidade e qualidade de seu desempenho, justificando, ao final, o comportamento de sua reclusa e estranha Emily.

A trama do filme foi explicada no terceiro parágrafo. O detalhe é que, não obstante a menininha não ter razão alguma para ficar contente com esta solução arranjada pelo seu pai, o psiquiatra David Callaway, ela logo arranja o amigo oculto do título brasileiro para lhe fazer companhia. De inofensivas brincadeiras, no entanto, as coisas começam a se tornar assustadoras, principalmente quando David faz amizade com uma linda mulher da cidade (Elisabeth Shue). É um pulo, então, para que sangue e ameaças comecem a fazer parte das brincadeiras, a menina se torne a mais esquisita das crianças e tudo fique fora de controle para um desesperado pai. Só lhe resta, a partir de então, descobrir como fazer para que sua filha abandone as propostas macabras de seu amigo imaginário Charlie, ou dar-se conta de quão real pode ser esta amizade. Neste ponto começam a aparecer os estranhos personagens utilizados para especularmos se Charlie não será um ser real, ao mesmo tempo em que David pede ajuda da sua amiga, a também psiquiatra Katherine (Famke Janssen), que acredita que a menina deveria ficar em seu ambiente normal e enfrentar os sentimentos decorrentes da perda.

O clima de tensão criado pelo diretor John Polson (Fixação) é crescente e extremamente competente, tal qual o desempenho dos atores. Cabe ao espectador imaginar qual dos estranhos coadjuvantes pode ser Charlie: o esquisito funcionário da imobiliária que lhes vendeu a casa?; o policial de aldeia com expressões de psicopata?; ou o vizinho da casa mais próxima que perdeu a filha e tem pecha de pedófilo?

É descobrir ou aguardar para assistirmos à famosa “reviravolta”, quando em um revival de cenas, somos levados a compreender o final bombástico guardado pelo diretor. Uma tática que já vêm se tornando tão repetitiva nos filmes que a Fox utilizou exatamente este mote para garantir que o segredo se mantivesse incógnito. E, lógico, para atrair maior marketing para o Amigo Oculto. Sua estratégia foi o de distribuir o filme nos Estados Unidos sem o último rolo. Os últimos metros de película, com o que a distribuidora alardeou como “surpreendente desfecho que será comentado durante muito tempo” só foi entregue aos cinemas no último instante, no dia da estréia, dia 28 de janeiro, para que não houvesse tempo de vazar a informação sobre o final.

Pena é este apego à infalibilidade da “cena final”, algo que vem contribuindo para um descuido com todo a primeira parte dos filmes, contando que a redentora última cena será suficiente para garantir o sucesso da produção. É a síndrome de Sexto Sentido assolando as películas de suspense.