21 fevereiro 2005

Verão em Porto Alegre

Bom que no verão tinham a desculpa do calor para começar as conversas constrangedoras que, ao final, se resumiam mais a silêncios do que a trocas válidas de palavras que significassem alguma coisa mais do que os olhares deles significavam. Sempre os comentários prosaicos sobre como tão quente está para quem fica na cidade, mas sempre haveria os que precisavam ficar, é certo, a máquina não se move sozinha e nem todos têm a oportunidade de aproveitar todos os momentos à toda hora, mesmo os merecidos, ainda que estando os dois em férias como estavam. E risadas, claro que tinham risadas, e ele nunca recusava o copo d’água gelada que ela lhe oferecia, somente o copo d’água está bom – ficava olhando os cd’s dela na estante enquanto esperava que ela se movesse até a cozinha e lhe trouxesse o copo. Depois ele se levantava e emborcava o copo todo, de pé, ela lhe observando ao lado. Adorava as analogias de revista sobre o homem insaciável e queria lhe mostrar o quão insaciável era, virando o copo d’água gelada de uma vez só, sem titubear por que está quente demais na cidade e eles, afinal, precisavam fazer o que precisavam fazer.

Era como explorar um reduto impenetrável. Entrar no seu apartamento, ela tão freqüentemente sozinha e sentar ao seu lado e ouvir as instruções de como deveria proceder com o trabalho com os arquivos. Tudo tão alvo, tão perfeitamente arrumado na sua simetria feminina. Aquele apartamento nas voltas da Independência em uma segunda-feira de calor tão insuportável era como entrar em uma outra dimensão. O suor, abundante tão somente pelo sol que veio recebendo nas costas durante todo o trajeto que caminhara, continuava a se manifestar naquela profusão agora provocada pelo nervosismo. Nem o copo d’água conseguia aplacar o seu calor: ela tão próxima e, ainda que tão doce, mantendo o rígido distanciamento que os separava – era uma professora, por certo; ele, um aluno se dispondo a lhe ajudar com alguns trabalhos no computador (por que os professores nunca sabem como mexer direito no computador) naquele verão de cidade quase fantasma, sol tão escaldante quanto os pensamentos que lhe surgiam em pontadas cada vez que entrevia um pedaço de suas pernas pela fenda pequena da saia. Conseguia estabelecer uma figura de entendimento pelo sorriso, o sorriso e o menear de cabeça; sim, entendia perfeitamente. Mas lhe passava pela cabeça o que ia à mente da professora. Se sentia falta de um homem, tão sozinha sabia que era. Não podia estar somente e o tempo todo voltada para seus interesses acadêmicos, os assuntos do seu mestrado. Em algum momento aquele apartamento deveria lhe parecer alvo demais, todos os espaços deveriam lhe parecer grandes em demasia, sua cama por certo pareceria em determinado momento muito fria e lhe faria sentido esquentar o outro lado com um corpo que não fosse somente o seu. E ele não lhe pareceria assim tão moço, tão inexperiente. Evidente que algum encanto havia de encontrar nele, também. Ela tinha o seu charme recatado que ele via e por vezes somente sentia vontade de embalá-la, conforta-la tão carinhosamente. Por vezes lhe surgiam verdadeiras indecências, perversões de toda ordem com que gostaria de submetê-la, tão frágil parecia já naqueles seus idos trinta anos. E ele haveria de chamar-lhe a atenção de alguma forma – senão com seus braços definidos ao menos com a jovialidade que ela como um intelectual acharia atraente. Que balzaquiana não se imaginou nos braços de um rapaz como ele?

Mas eram os pensamentos somente. Se devaneasse desta maneira tão desmedida perderia todas as explicações que ela lhe dava. E se por acaso atravesse-se a um ato mal calculado poria pôr fim a todos os seus privilégios de bolsista e aí seria o inferno. O constrangimento seria tão maior do que o silêncio que se impunha naquele apartamento à tarde. Viriam seus gritos, seus impropérios e ele já se imaginava ouvindo coisas como indecência, desrespeito e outras que transformariam sua voz tão naturalmente agradável em uma sucessão de manifestos indignados. Seria posto para fora, não tardaria para que soubessem seus atos na faculdade e iria se queimar em definitivo. Por isso não havia sentido em continuar com suas pueris fantasias. Nem se enganar achando que a fenda da sai dela se encontrava um tanto mais aberta desde que ela fora até o quarto buscar um disquete e voltara. Nem pensar em que altura de abotoamento sua blusa se encontrava então, quando agora parecia demonstrar tão mais dos seus firmes seios. Muito menos ser tão maldoso por achar que ela pretendia alguma coisa por descansar a mão na sua coxa, tão próximo que ele precisava controlar o involuntário movimento de sua bermuda, enquanto lhe perguntava se ele não gostaria de refrescar-se um pouco no banheiro, afinal, tão quente está para quem fica na cidade, não é mesmo?

Publicado originalmente no Simplicíssimo.