28 março 2005

Epifania

Em casa de Samara existe uma janela para se tomar decisões importantes. Sempre que é necessário entrar em acordos cruciais, definir de que forma serão feitos tais e quais procedimentos, se toma o rumo do quarto que Samara divide com sua irmã Nanci. Daí, o ritual pede que se debrucem sobre o batente da janela como quem vai somente olhar a rua e comentar como andam gordos os vizinhos da frente e que estranho é o modo daquele sujeito pardo caminhar e, sem elegância alguma – por que, afinal, não é um gesto nobre, não é um momento de dádiva singular e não aparece nenhum anjo do Senhor empunhando uma espada flamejante para lhes trazer a sabedoria divina: é somente um momento mágico a que todos em casa de Samara (bem como seus agregados) já estão acostumados desde sempre e para todo o sempre – dobrados como ao olhar de quem vai espiar a vida alheia, são discutidos alguns argumentos, levantadas algumas questões, redargüidos alguns prós e contras e chega-se, sem embate, sem virulência, sem níveis altos de voz à esperada solução final. Então os presentes na contenda tomam os rumos dos seus afazeres, voltam às suas vidas comezinhas e, não digo a felicidade, mas a aceitação dos tamanhos e métodos das coisas tornam todos em casa de Samara tão satisfeitos.

Não se pode dizer que exista a felicidade em casa de Samara. Existe satisfação, isto é bem verdade. Comodismo impetrado pela facilidade de resolução que a janela trouxe para suas vidas. Falta de diálogo fora do retângulo de quando a janela envolve os seus corpos. Fora da janela, não há conversa que não seja trivial, não há afago que não seja automático, não há discussão que não acabe em violência. Em casa de Samara, para que não haja risco de que os sentimentos se abalem fora da sensatez que abriga a janela, escolheu-se viver uma vida pela metade, olhar de viés para que os ânimos não se incendeiem e fingir que tudo deve ser assim mesmo por que, afinal, quem tem uma janela como a janela que existe em casa de Samara?

Samara e todos os demais não discutem como as coisas se dão fora de sua casa. Os agregados de Samara aceitam quietos o que lhes é colocado no prato, comem de cabeça baixa para que a refeição seja consumida logo e possam voltar a fazer nada e pensam que contatos físicos mais demorados podem pôr fim ao funcionamento deste estranho objeto mágico encaixado na parede que dá frente para a rua e que não mostra nenhuma outra vista que não seja a medíocre, acinzentada e urbana de sempre. Em casa de Samara se pensa que as coisas estão bem já que estão e quando estão assim.

Outro dia, entretanto, estabeleceu-se uma altercação sem justificativas entre todos os integrantes da casa de Samara. Discutiu-se tanto (e sem que estivessem preparados para isto, uma vez que evitavam dirigir a palavra uns aos outros para que não houvesse o risco de que uma discussão como esta pudesse ocorrer sem que estivessem todos envolvidos pelo retângulo maravilhoso da janela do quarto de Samara e de sua irmã Nanci) e de maneira tão veemente, em bramidos nunca ouvidos naquela casa, com tamanha alteração de ânimos, que todos os habituais passantes, acostumados a vislumbrar os dois ou três que se reuniam comumente na janela de casa de Samara, aturdiram-se com o acontecido. E pararam em frente da janela da casa de Samara. E ouviram os gritos e os choros em casa de Samara. E perguntaram-se o que estaria acontecendo em casa de Samara.

E alguém, e não se sabe quem, da rua gritou: ‘o que acontece em casa de Samara?’. E todos em casa de Samara fecharam suas bocas, crisparam seus dedos e como congelaram suas ações ao ouvir a pergunta. E todos se olharam e ninguém soube explicar o ódio que lhes ia ao coração e esperaram que alguma ação externa se fizesse. E alguém, e ninguém sabem dizer quem foi, da rua gritou: ‘por que não há ninguém na janela da casa de Samara?’. E todos, exatamente todos em casa de Samara se deram conta da inutilidade de seus gritos, da estupidez de sua violência, da imbecilidade de sua intolerância. E eles meio que riram (por que ninguém ri muito em casa de Samara), perguntando-se – não perguntaram uns aos outros – por que discutiam e que ira movia suas ações. E sem que fosse preciso mais intervenção alguma de alguém da rua, eles tomaram automaticamente o rumo da janela no quarto de Samara e de sua irmã Nanci e se puseram em silêncio sob a sombra que o retângulo de madeira que lhes envolvia formava em suas nucas.

E sabe-se, embora nenhum deles tenha dito isto, que um instante como de epifania se fez. Por que nunca mais foi preciso e, realmente, por que acreditaram que esta foi a instrução que lhes foi dada, nunca mais se trocou uma palavra entre nenhum integrante da casa de Samara.

Publicado originalmente em 23/03/2005 no Simplicíssimo.