17 março 2005

Para desmembrar bonecas brancas

Título: O Olho mais azul [The bluest eye]
Autora: Toni Morrison
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 8535903151
Ano: 2003
Edição: 1

A literatura de Toni Morrison é árdua e mesmo muito após sua leitura inicial (e necessária releitura) se mantém como um travo em nossa língua, um quê de amargor que mesmo a sutileza das palavras tão belas de Morrison não se interessa fundamentalmente em nos justificar. Ficaria tão mais fácil compreender este tanto de estranheza se a literatura de Morrison fizesse concessões imediatas para o raivosismo, se seu texto fosse recheado de ódio e seus personagens fossem tão somente sujeitos unilaterais desprovidos de maiores fragmentações comportamentais. Se não tivessem nuances e complexidade. Se fossem só e totalmente negros desesperados, raivosos e violentos – amargos como tão amargos e inacreditáveis são os pressupostos de inferioridade que lhes querem impugnar.

Se os personagens de Toni Morrison somente reagissem violentamente como lhes é esperado, se não se envolvessem de idéias por vezes tão obtusas como tentativa de fuga de sua realidade, seriam protótipos do negro sofredor da década de 40. Claros e precisos, talvez. Mas desfeitos de maiores interesses que nos fizessem querer compreender as origens e conseqüências de seus sentimentos e de seus atos. Afinal, tal vontade é o que nos motiva para descobrir quem olhou com tal aversão para Pecola Breedlove, criança e negra, e lhe fez desejar com tal ardor os olhos azuis mais intensos para apaziguar (quem sabe?) seu sentimento de aversão por si mesma, já tão irremediavelmente marcado.

Esta foi a motivação de Toni Morrison afinal, por que Claudia MacTeer, que narra O Olho Mais Azul é alter-ego da autora e, não obstante o fato de ter os mesmos onze anos da sofrida Pecola, resiste tão bravamente à supremacia étnica e social que lhe é imposta que seus impulsos mais violentos (desespero odioso pelo modelo de beleza e adoração daquela década) são o de desmembrar bonecas brancas. E odiar com o fundo do coração tudo o que a atriz-mirim Shirley Temple representava então, com seus cabelos loiros e cacheados e graciosos olhos azuis. Tão distante e servindo somente para confundir a identidade daquelas pequenas negras. E que outro modelo identitário lhes resta? Talvez as três prostitutas contadoras de lorotas que moram no apartamento de cima. China, Polaca e Maria, cumprindo unicamente a sina de vender seus corpos, suas ancas sempre boas e prontas para o sexo, seu frenesi negro sempre mais ardente para as coisas da carne. Para Claudia e Pecola não há exatamente mais ninguém próximo que lhes seja modelo naquela América branca, naquela gélida cidade de Lorain, Ohio, onde lhes aguarda um futuro de grandes progenitoras e exímias donas de casa. Para limpar e manter em ordem a casa dos outros.

Próximo à Claudia há sua irmã, Frieda e sua mãe que lhes trata o resfriado com purgante Black Draught e óleo de rícino. Há as conversas cansadas e nervosas sobre a Companhia de Carvão Zick’s – mas estas conversas são dos adultos e só cabe a Claudia e Frieda ouvir sorrateiramente. Há as fofocas femininas sobre os homens do bairro. E há senhor Henry, o inquilino de um quarto na casa dos MacTeer. Que é espancado e posto para fora pelos pais delas quando tenta tocar em Frieda.

E próximo à Pecola não há exemplos muito mais dignos. Há Cholly, seu pai, bêbado e violento demais para qualquer ato que de alguma ternura para com ela. Há a mãe, que responde à violência do marido à altura e há uma situação que se torna insustentável quando Cholly espanca a mulher na frente de Pecola e põe fogo na casa. O que aproxima Pecola de Claudia e Frieda quando o serviço social a instala temporariamente na casa das duas.

Como a Pecola só resta achar que é feia, agressivamente feia, pobre e feia, lhe sobra a crença de que se seus olhos fossem diferentes, ela seria diferente. Então, toda note, sem falta, Pecola reza para ter os olhos azuis. Reza fervorosamente. Por mais que demore, porque Pecola sabe que leva muito tempo para que uma coisa maravilhosa como essa aconteça.

Toni Morrison, ganhadora do Nobel de Literatura, 1993Toni Morrison faz literatura como quem faz poesia. Não passa a mão na cabeça, sendo negra como seus personagens. A ganhadora do Nobel de Literatura de 1993 (ano da reedição deste livro, cuja primeira publicação é de 1965) dramatiza, sim, a devastação que o desprezo racial pode causar. Mesmo que este desprezo seja “casual”, mesmo que seja arraigado pelo “costume” – ele é desintegrador, ele é agressivo social e domesticamente. Ele é rotineiro, ele é excepcional, algumas vezes monstruoso. Um exercício de neutralidade de Morrison: manter o olhar de desprezo dos personagens sobre Pecola (e sobre qualquer menina negra na sua mesma vulnerabilidade) sem, no entanto, se tornar cúmplice. E sabotando, aos poucos, as razões deste desprezo.

O Olho Mais Azul é, ao final, um livro generoso ao extremo. Dá voz a um ser incapaz de compreender a violência tão “natural” que lhe envolve – e tudo em uma linguagem coloquial, revelando sorrateiramente um segredo terrível, destrinchando a desestabilização e a destruição da vida de uma menina negra, como se fosse tão somente algum evento corriqueiro, um mexerico sobre alguém dentro da família, da vizinhança.

São declarações indizíveis sendo ditas finalmente, como se um bando de mulheres fofocando sobre pudesse amainar a ruptura da natureza de Pecola, pudesse amenizar o vazio em Pecola. Criando uma familiaridade com o leitor, sem assustá-lo com declarações bombásticas ou repentinas. Por mais que haja coisas terríveis para se contar. “Cá entre nós”.