01 março 2005

Philip Roth: afrontando a América. Uma análise de “Lição de Anatomia”

Não é preciso que todo texto sobre Philip Roth comece falando a respeito de Complexo de Portnoy. Mas pode-se fazê-lo sem problemas. Afinal, nunca é demais voltar àquele romance de 1969 que é uma longa fala de Alexander Portnoy, jovem professor de literatura bem sucedido que repassa com seu terapeuta sua experiência de judeu americano. Pode-se falar a respeito de Complexo de Portnoy porque sempre existirá aquele que não terá ainda tomado consciência deste relato extraordinariamente mordaz, sarcástico até a medula e de uma franqueza absurda. Existirão aqueles que não sabem do choque inicial com que os críticos receberam este livro, uma hora acusando-o de pornográfico, até se renderem à qualidade indiscutível do texto de Philip Roth, e de tudo o que ele produziu daí para frente (certo, no entanto, é que já desde o seu primeiro livro, Goodbye Columbus, o autor conquistou antipatia dos que consideraram extremamente inadequado e desrespeitoso o tratamento dado aos judeus no texto). E talvez existam até aqueles que não se deram conta da – embora a francamente explícita exposição masturbatória do adolescente Portnoy possa por vezes confundir a atenção – visão aguçada de Philip Roth sobre uma América fraturada e como, ainda que através de um tecido tênue que pode tornar baço para os menos atentos a sua estratégia, Roth constrói com palavras precisas uma crítica perfeita sobre um país mais do que individualista, mas marcado por perversões de uma sociedade americana por muitas vezes enojante.

Embora seja um ato extremamente reducionista tentar definir a obra de um autor através de poucas palavras (como se ele cometesse, invariavelmente, versões de mesmas intenções em toda a sua obra), se não é definidora, ao menos serve como auxílio para compreender um tanto sobre os romances de Roth as três palavras que o romancista John Updike utilizou sobre seu trabalho: literatura, ereção e Israel. Auxilia por que dá conta das discussões sobre literatura que estão sempre norteando os personagens-narradores (em especial o alter ego de Roth, Nathan Zuckermann), escritores, professores, grandes leitores, e suas preocupações ou obsessões de ordem sexual, e, lógico, a mais identificadora característica de Philip Roth, as discussões sobre judaísmo em que seus personagens estão sempre envolvidos – que tanto podem assumir características de auto-ironia, como pode passar por zombaria dos costumes e tradições israelitas (recebendo até mesmo acusações de fomentação de preconceito contra o povo judeu) como pode comportar quase ensaios sobre judaísmo e Israel, tão complexos que provavelmente só um estudioso do assunto poderia elaborar sínteses que possam ir além da superfície e do risco de se enganar sobre as reais intenções de Roth. Um exemplo notório desta última forma da questão do judaísmo se sobressair no texto de Philip Roth é o romance de 1993, Operação Shylock, um delírio ensandecido em que o próprio Roth é narrador mas também personagem, envolvido com um trapaceiro que se faz passar por Philip Roth em Israel e prega a Nova Diáspora como única saída para o impasse do Oriente Médio. Se é uma discussão séria ou piada nonsense de Roth, isto é algo que seu sarcasmo e humor corrosivo não tem nenhuma preocupação de nos tornar claro. O que importa é o grande achado literário que acabou sendo para a sua carreira seu constante tom entre humorístico e amargurado e a falta de auto-piedade judaica que, ainda que traga emanações por vezes violentas, capazes de evocar para alguns um ressentimento beirando o preconceito, na verdade se traduz somente como um reflexo inteligente deste grande autor sempre em contínua auto-avaliação.

O fato é que os dramas de Roth são na verdade representações individualistas. Não é preciso ser gênio para enxergar não somente em Nathan Zuckermann o autor de ego hiperdesenvolvido e narcísico – em todos seus livros se escutam os ecos de constante investigação própria sobre os novos territórios por ele explorados. Não é estranho, portanto, que, aos 71 anos, sempre se atualizando, em O Teatro de Sabbath, de 1995, nos apresente um romance sobre velhice, desagregação e erotismo. Lógico, que, não perdendo o jeito, a abordagem da velhice é decadente, sem sabedoria e sórdida. E, nos três romances seguintes, Roth se livra um tanto do autocentramento e propõe um Nathan Zuckermann que, pelas seqüelas de um câncer de próstata nefasto, padece de impotência sexual e narra a vida alheia em uma trilogia onde as obsessões de Roth (literatura, ereção e judaísmo) estão novamente em extrema evidência: Pastoral Americana, de 1997, Casei-me com um Comunista, 1999 e A Marca Humana, de 2000.

Se o humor amargo destas narrativas provém do ponto de vista do velho e impotente Zuckermann, ao retornarmos para 1983, em Lição de Anatomia encontraremos este personagem escritor, ainda que no auge de sua carreira literária, se questionando enormemente sobre a função de sua atividade. Padecendo do início ao fim do romance de um mal que lhe acomete dores insuportáveis no pescoço, braços e ombros – uma dor que “tornava difícil caminhar mais que alguns quarteirões, ou mesmo ficar em pé mais tempo” – mesmo assim consegue dar vazão aos seus quase incontroláveis impulsos sexuais. Por isso, na falta de uma mãe que lhe cuide quando doente, já que afirma que todo homem quando adoece anseia pela figura materna, Zuckermann cerca-se de quatro amantes para lhe servir. Assim, mesmo que envolvido em uma coleira ortopédica que lhe imobiliza o trapézio e o faz ficar esticado durante todo o dia em um colchão de plástico para crianças – assistindo à televisão com um óculos de prisma que lhe permite ver em ângulo reto –, “coito, felação e cunnilingus eram coisas que Zuckermann conseguia realizar quase sem dor, mesmo que estivesse deitado de costas, mantendo a enciclopédia debaixo da cabeça como apoio.”

Lição de Anatomia é a saga de um Zuckermann atordoado de uma dor que cresce a cada tentativa sua para dizimá-la. Seus esforços são vãos em todas as suas formas, nenhum médico tem um diagnóstico eficiente para o seu problema. E é assim desde a primeira página, já que o primeiro fato do qual somos informados é a respeito da dor que o atormenta. O psicanalista insinua que a sua dor é um pretexto para cercar-se de mulheres; o acupunturista enche Zuckermann de agulhas e não obtém nenhum resultado; o médico de vitaminas lhe aplica injeções; o esteopata repuxa seus músculos; o fisioterapeuta, o ortopedista, o radiologista, o neurologista... Todos empreendem buscas acirradas para solucionar seu problema. Que se agrava página após página. E que o faz perder cabelo e apelar para uma clínica tricológica. Que só lhe faz conhecer outra mulher para saciá-lo sexualmente enquanto nenhum médico o sacia no seu desespero pela tranqüilidade física.

Os aborrecimentos na vida de Nathan Zuckermann o vão cercando de maneira claustrofóbica. O escritor do grande best-seller “Carnovski” se perde cada vez mais em delírios sobre os motivos de sua agonia. Os significados ocultos para ele por vezes se escondem como penitência pelo grande sucesso do livro – o romance é o retrato de uma família judia, cuja mãe é apresentada com um mau gosto que ofendera a milhões de leitores, entre eles seu próprio irmão, Henry, que o culpa pela morte da matrona e de precipitar o ataque coronário do pai. Poucos compreendem a literatura de Zuckermann: os que conseguem, o idolatram; aqueles que não, o detestam, o acusam de preconceituoso, violento e sarcástico no trato com os judeus. Como se ele próprio não fosse um. Como se Philip Roth também não.

Zuckermann cria, por conta própria, um fronte de ataque que o persegue por todos os lados: a maldição do pai moribundo não consegue fazer com que escreva uma página decente desde a decepção que para ele representou o “Carnovski” e, para piorar, insiste em atribuir a autoria de uma carta anônima com ofensas terríveis à sua falecida mãe à Milton Appel, o crítico que julgou seus primeiros contos como“vivos, imperiosos, exatos” e que, catorze anos depois, reconsiderara o que chamava o “Caso Zuckermann”. Agora, depois do seu livro de estréia, “Educação Superior”, os livros seguintes de Nathan apresentavam judeus deformados vulgarmente, seus livros se tornaram romancezinhos perversos, desagradáveis e o que escritor produzia era subliteratura. Quase uma ode ao anti-semitismo.

Não bastasse, portanto, a consagração de sua carreira, seu sólido trabalho como escritor, Nathan Zuckermann toma como extremamente importante a opinião de Milton Appel sobre o seu trabalho. Que ele somente seja um ressentido editor de uma segmentada e pequena revista de público judaico, a Inquiry, isto não importa. Importa a mágoa que vai no coração de Zuckermann, levando até mesmo para as suas amantes o amargor que significou para a sua vida a crítica dura de Appel. Não importa quão medíocre tenha sido a infância de Appel, que talvez parte de seu ódio para com a literatura de Zuckermann seja decorrente de uma infância judaica sofrida, de um pai do qual se envergonhava. São atenuantes que, para Zuckermann não servem para minimizar o ataque gratuito de Appel. Somente para enfurecê-lo ainda mais. O que Nathan não enxerga, no entanto, é a inveja de Appel por ele ter conseguido chega a um público além do reduto judaico. Tanto é verdade isto, que Appel apela indiretamente para que Zuckermann escreva um artigo em apoio ao Estado de Israel, quando este é atacado por egípcios e sírios. O que Zuckermann toma como provocação. Como se o autor acusado de anti-semita, desagregador dos judeus agora pudesse fazer um favor por que é conveniente para Appel. É a sua chance de ser desbocado, de desancar Appel, de magoar-lhe também. E, não bastando sua negativa, faz isso com um telefonema agressivo – como se Appel se importasse.

Somente Zuckermann se importa. Zuckermann está com os nervos à flor da pele. Appel lhe incomoda e nem mesmo conhecer uma estudante secundarista para realizar os seus delírios eróticos lhe faz melhor. Ela lhe considera infantil, um estúpido por querer confrontar as críticas de Appel. Se nega a datilografar uma carta desaforada de Zuckermann para Appel. Ela lhe joga na cara a sua importância, a sua carreira como escritor; ela lhe fala quem ele é, lhe diz que são os seus livros os lidos em sala de aula. Nada disso importa. Zuckermann questiona a utilidade da carreira de escritor (“E se vinte anos escrevendo foram mera impotência diante de uma compulsão – a submissão a uma compulsão inconseqüente e vil, que dignifiquei com todos os meus princípios, provavelmente uma compulsão não inteiramente diferente daquela que fazia minha mãe limpar a casa cinco horas todo dia? Então, em que ponto estou?”)

Então, Nathan Zuckermann decide estudar Medicina. Simples assim. O que parece um palavrório que irrita tanto a secundarista a ponto de fazê-la sumir de sua vida, se transforma em outra obsessão de Zuckermann. Recuperar o tempo perdido, abandonar a literatura, rumar para Chicago, estudar Medicina. Encontrar na Medicina a redenção não alcançada através dos escritos. Ser útil à sociedade, salvar a vida de pessoas, ter um dia prático. Saber que A + B foram os esforços necessários para fazer o bem para outras pessoas. Chegar feliz ao final do dia. Combinar as drogas necessárias para aliviar a dor de outrem. O que Nathan não sabe é que ele procura alguma droga para aliviar a sua própria dor. E já que não sabe, ele o faz inconscientemente. Enfileirando os vidros das mais diversas farmacologias, auto-medicação para tentar se livrar da dor: Percodan, cigarros de maconha, uma conveniente garrafinha de vodca no bolso do paletó. É Zuckermann voando para Chicago completamente chapado para a entrevista de admissão para a Escola de Medicina. É Zuckermann em Chicago tentando horrorizar os incautos com sua atuação como “Milton Appel, o editor da Lickety Split, o rei da indústria pornô” – uma atuação que lhe custa os dentes, é verdade. Zuckermann insano, Zuckermann levando uma bota na cara. Zuckermann somando dores sobre dores, descobrindo que o seu teste para o ingresso no fantasioso mundo maravilhoso da Medicina não passa sequer pela inspeção do buraco no rosto da senhora que tratou um câncer com curativos.

O final de Lição de Anatomia não leva Zuckermann à redenção. Não lhe mostra os caminhos que deve percorrer para voltar a acreditar no que quer que seja. Ao final de Lição de Anatomia, sobra somente uma grande interrogação. Não é possível saber dali quais serão os passos de Zuckermann. Zuckermann não sabe para onde vai.