17 março 2005

Velhos


Como quem conta dedos, fez número dos velhos na praça. Um, dois. Alguns espantavam moscas, preocupados com o nada, a indefectível boina e um olhar embaçado dividindo espaço com as meninas de calças apertadas em voltas sem fim por ali. Três, quatro, cinco. Um grupo se acotovelando por volta das mesas de jogos de damas, tão compenetrados com o movimento das tampas vermelhas contra as brancas – uma torcida silenciosa formada de olhares reprovadores, cochichos irônicos e fungadas impacientes. Os seis ou sete pareceram perceber sua contagem, fitaram-no enraivecidos e tomaram rumo da banca de jornal. E se enraiveceram ainda mais por alguma medida qualquer estampada na capa, de aumento de imposto tal ou corte de benefício que, por fim julgaram rapidamente, os deixaria em maus bocados. E foram para casa tomar café com leite.

Quando conseguiu terminar a contagem mentalmente, eram vinte e três ou vinte e quatro, às dezesseis horas da tarde e tornou a repetir o gesto somente para se certificar que nenhum outro teria fugido. Na lentidão dos passos dos velhos, podendo se demorar sobre o de número dezesseis notou-lhe a imobilidade mais do que impressionante. Desde as nove ou dez horas da manhã, antes do caixote de madeira sequer somar dois reais no seu interior, o velho se mantinha absolutamente inerte aos outros velhos da volta. Perto do meio dia, duas ou três bananas porque têm potássio. E o velho mirando o nada. Como se arrastara até o extremo oposto da praça por que ali já não mais se compadeciam com seus cotôcos de pernas e suas roupas puídas e seu cheiro azedo, já não tinha mais certeza de ser o mesmo velho das nove. Uma menina se aprochegou por volta das quatorze, mirou o velho de cima abaixo e sentou ao seu lado. O velho lhe ofereceu um pedaço de rapadura, ela colocou a mão sobre o seu joelho e ele balançou a cabeça negativamente. Ela insistiu com os dedos finos perto da sua braguilha e o velho fez menção de levantar. Como ela desistisse, meneando a cabeça umas tantas vezes, ele tornou a sentar-se, descascando mais uma banana. E ela se bandeou para o lado dos jogadores de dama.
- Um real para ajudar com a comida, moço!

Vinte e cinco centavos tilintaram na caixinha. Do outro lado da praça também não mais se solidarizavam com um mulambento sem pernas. Arrastando-se entre os velhos jogadores de dama, era como se mais um cachorro. Os velhos preferiam catar os minguados para apostar em quem venceria a partida do que lhe estender uma moeda de meio real que fosse. Os velhos preferiam não desviar os olhos da mesa a se importar com quem lhes roçava as canelas.

O dezenove – mas bem que poderia ser o vinte e um, os bonés de cores semelhantes – lhe perguntou se queria comer algumas bananas. Que tantas bananas levam os velhos nos bolsos? Decerto, medo das câimbras nos ligamentos.

No desvencilhar de tantas pernas compridas, no aconchego de seu canto escuro em um reduto lá da praça e já contavam as vinte e uma, vinte e duas horas. Foi um segundo para fechar os olhos e fingir esquecer da fome, abrir os olhos e olhar em volta como um estalo e os velhos não somavam mais nenhum dedo de sua mão. Enquanto os vagabundos preenchem os bancos com seus molambos para se abrigar do frio, os velhos correm para casa para lavar dentaduras e assistir novelas.

Publicado originalmente no Simplicíssimo.