13 abril 2005

Para quem não é dos pagos gaúchos, a conversa pode parecer das mais estranhas, mas o fato é que a escritora Cíntia Moscovich chamou Tânia Rösing para a briga. A indagação é sobre o porquê das já famosas Jornadas Literárias de Passo Fundo não estarem dando especial destaque (ou destaque ínfimo) para os escritores gaúchos. Cíntia divulgou uma carta aberta que fez a alegria dos gaúchos desamparados, dos artistas que se sentem preteridos na sua arte, na pouca divulgação dentro do seu estado e de quase (a seu ver) nenhum diálogo com os seus iguais do centro do país. Pareceria haver um descompasso entre o momento da literatura gaúcha e a não-projeção dada pela cada vez mais prestigiada Jornada Literária. O que se transforma numa cada vez maior vitrine, o evento de Passo Fundo, não estaria contribuindo para o engrandecimento dos escritores gaudérios, pobres coitados sempre relegados ao ostracismo, não abocanhando nenhum naco desta grande sensação que demonstra cada vez mais uma tendência não ao local, mas ao cosmopolita.

Na sua 11ª edição, com o tema “Diversidade Cultural: o diálogo das diferenças”, a Jornada não estaria contribuindo para a divulgação e nem convidando ao debate da literatura produzida aqui no estado. O que acontece é que, nunca necessariamente o evento das Jornadas se mostrou disposto a ser o responsável pela literatura feita por aqui. Nunca se eximiu, é lógico, uma vez que também sempre incluiu em sua programação escritores gaúchos, mas também nunca quis tomar como bandeira nenhuma “articulação” para ter como principal agenda de suas edições a “literatura gaúcha”.

Se nota pela carta aberta de Cíntia Moscovich uma expectativa grande para que as Jornadas se assumam com responsabilidades sobre os escritos do sul. A carta, além de transitar pelos e-mails, foi publicado no caderno “Cultura” do jornal Zero Hora de sábado passado. O que pareceu tornar tudo mais indignante para a escritora foi o fato de Tânia não ter sequer se manifestado a respeito da dita carta, mesmo quando inquirida por jornalistas e outros interessados em fortalecer o protesto da Cíntia, como, segundo ela, a Associação Gaúcha de Escritores (AGES), que publicou tanto a “Carta Aberta”, quanto a “Resposta à Falta de Resposta”. A contenda vem se estendendo desde 22 de março (quando a carta teria sido remetida à Tânia), trazendo novo pedido de manifestação de Cíntia Moscovich, que diz “falo em nome de uma esmagadora maioria de autores que gostariam de estar em Passo Fundo dialogando com seus pares e porque acho que esse tipo de discussão merece ser estendida à comunidade literária”. Cíntia ainda faz a contabilidade: “Dos 125 autores listados na Jornada e Jornadinha (sim, há uma série de eventos paralelos, como um encontro da Academia Brasileira de Letras, cursos e encontros), menos de 10 são autores gaúchos.”

Como a insistência de um só lado permanece, me atrevo a crer que Tânia Rösing preferirá não fomentar nenhum debate. Ao menos não por agora. Certo, no entanto, é que a discussão poderá entrar (quase que com certeza) dentro de discussões mais ou menos informais na própria edição da jornada. É provável que os poucos gaúchos lá presentes tomem também as dores, sentindo-se injustiçados, pouco representados, ou achando que somente pelo fato de tal evento estar sendo realizado no sul, por força de uma prefeitura e outras entidades gaúchas apoiadoras (Universidade de Passo Fundo, Zaffari, mas também tantas outras nacionais como Petrobrás, Embratel, etc), tal evento deva elevar com destaque os escritores gaúchos.