11 abril 2005

A perversidade das festas felizes demais

Editora: Barracuda
Ano: 2004
Edição: 1
Número de páginas: 96
Fabio Danesi Rossi é perverso, deliciosamente perverso. As primeiras linhas de “Todas as festas felizes demais”, livro que o escritor lança pela editora Barracuda, já enunciam tal verdade com exatidão. São barbeiros com pouca destreza para um corte de cabelo decente, médicos que não curam as mais simples enfermidades, alfaiates com tremedeira crônica... São seres literários com tamanhas imperfeições que nos fazem crer que por vezes o autor ecoa a perversidade de um Dalton Trevisan. Os seus aforismos seriam mais um ponto forte para reforçar tal paralelo. Mas esqueçamos. A intenção aqui não são comparações (embora ecos de Luis Fernando Veríssimo se ouçam com tanta clareza...), mesmo que elas se façam sempre tão presentes e necessárias quando analisamos um livro, principalmente de um estreante como Fabio. E buscar referências nunca é um mal desnecessário.

Tendo estreado em livro com a compilação dos “Wunderblogs”, sua première na ficção se dá realmente com esta coletânea de contos. É aqui que podemos encontrar o escritor Fabio, atentar para seu gosto para as fábulas e para seus narradores que por vezes parecem adultos com medo da realidade – é assim em “A casa”: a sala que vai parar na cozinha, a garagem que assume o lugar do banheiro, um casal que acorda dentro do armário, pendurados no cabide. E o humor (sempre perverso, não esqueçamos, como do criador que vê os seus seres perdidos em estranha aflição, eterno embate em suas próprias vidas estranhas) percorre cada uma destas linhas. Se há um limite tênue que faz alguns textos quase resvalarem para o surrealismo é por que o autor por vezes sinaliza como quem lê os próprios pensamentos de suas criaturas.

As histórias de Fabio são breves. Curtas e solucionáveis com a simplicidade freqüentemente escamoteada por onze entre dez estreantes. Não há jogos intrincados nem brincadeiras indissolúveis para o leitor. Mas é certo, no entanto, que sua beleza lírica nem sempre esconde a melhor das intenções. Se clareza é um fato, pode ser também estratégia. A vida não parece tão clara? Quantos desdobres de possibilidades nos oferece, no entanto? Se os personagens de Fabio se quedam ao encanto da discussão sobre ter ou não ter filhos (o homem se esquivando, é lógico), como em “A caminho”, o trajeto que percorrem nesta conversa pode esconder final infeliz na próxima curva.

Se por vezes seus personagens se enchem de certezas metafísicas (“Deus não existe.”), é o retrato em transe do passado que se forma como instante capturado, lembranças sempre amargas, tristes, malfeitas, tortas, de festas felizes demais, no conto que dá título ao livro.

E Deus, ah, este aparece como figura certa: em comparações, em negativas, apontado por seus erros de criação, cobrando pela barriga saliente, liquidando o planeta Terra. É a farra do consumo e Fabio Danesi Rossi igualando a vida a um produto. Se titubear, o autor cai na crônica, gênero que ele parece evocar provocativamente. Por vezes chama por Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, querendo-os perto de si, junto com Otto Lara Resende. E se exercita como um malabarista, perigando cair – “O Anel”, “Encontro” e “Juízo Final” são exemplos notórios disso – e revelar mais do que nuances de crônica. E se transitar por esta zona, tornar-se-á, como bem diz Carpinejar na orelha, um cronista cáustico. Há uma indecisão de gênero no autor, no entanto, que se não chega a comprometer em definitivo também não se mostra como ponto positivo para seu texto.

A formação de Fabio em Propaganda e Marketing deve ser capaz de justificar algumas frases feitas a um passo do slogan: “A memória é um biógrafo senil”, “A vida é o único produto cujo preço é o seu consumo”. Talvez por isto tantos aforismos. A concisão, para o bem ou para o mal, acaba sendo uma característica facilmente apontável nesta estréia de Fabio.

Mas Fabio se redime com rapidez. “Como se decidem os salários” volta a ser violentamente perverso. Amargurado e um tanto indignado, mas também – é certo –-mostrando-nos quais são os momentos mais brilhantes de Fabio. Se estes momentos flertam com a crônica, talvez esteja por aí o caminho do autor. Indecisão no trabalho inicial é perfeitamente compreensível.

O certo é que em uma época literária infestada de escatologia, crueza urbana em excesso e sexo como válvula de escape em narrativas onde o niilismo parece ser tema de identificação de um grupo grande demais, misturar doses de alegria com amargura e perversidade sem cair no lugar comum é uma tarefa difícil. E Fabio Danesi Rossi consegue desvencilhar-se dela com desenvoltura, oferecendo como resultado um livro que nos mostra um escritor pronto para novas empreitadas.

Publicado originalmente no Paralelos;.