25 setembro 2007

Fragmentos

Com exceção do trabalho – dias tomados pela incessante criação de formas de comunicar uma marca que recém vem chegando no mercado (e já vindo a mil e cheia de estratégias e investimento e vontade de se tornar, até 2011, uma das dez maiores marcas brasileiras) e que vem me dando, além da oportunidade de fazer coisas interessantíssimas em propaganda, real satisfação pela possibilidade de participar do nascimento da identidade de uma marca, desde seu mais tenro início. E o melhor: uma marca que eu abraço com honestidade, um produto cool que me entusiasma e me dá real vontade de usar e cujos atributos, que começamos a atrelar a ele, têm tudo a ver com minha forma de ver a vida – todo o resto da minha vida vem sendo preenchido de coisas pela metade. A saber: finalmente tomei vergonha na cara e quedei-me à condição de casado; portanto, meus dias imediatamente anteriores se resumiram a encaixotar a vida que vinha acumulando durante vinte e oito anos na casa dos meus pais – e que surpresa saber que ela serve inteira em dezenas de caixas. Afinal de contas, não se resumem a muito mais que toneladas de livros, revistas, cds e dvds, milhares de folhas (realmente, a quantidade de papel que tenho talento para juntar é assustadora!), objetinhos diversos e, no más, meu computador. A bicicleta vem na seqüência. Mas buenas, e no más, agora me tornei um feliz morador da Cidade Baixa, bairro pelo qual sempre fui apaixonado. Junte a isto o fato de minhas coisas ainda estarem em caixas, uma mobília que vem sendo adquirida às pingadelas e à realidade de meu local de trabalho ter se transferido de Porto Alegre para Novo Hamburgo e talvez consiga sentir, um pouquinho só, o quanto me sinto multifragmentado.

É provável que tal sentimento explique a habilidade que eu estou para não terminar estas outras coisas na minha vida: minhas leituras de revista ficam pela metade, entrecortadas em meio a longas viagens POA-NH e não se resumem a coisas muito mais profundas do que resenhas de livros, cds e filmes. Par ter uma noção do tamanho da profundidade do momento em que vivo, estou lendo Glamorama, do Bret Easton Ellis. Aos conhecedores, fica fácil saber do que estou falando. O autor de Psicopata Americano é mestre na arte da futilidade. E, realmente, deste livro não se pode tirar muito mais do que diversão superficial. Mas, enquanto não entro nos eixos, ao menos é garantia de diversão acompanhar a saga deste mundinho formado por modelos decadentes e uma tonelada de personagens cujas atividades consistem em profissões com nomenclaturas descolês: são VJs, DJs, promoters e toda sorte de habitantes desta fauna norteamericana que fazem parte dos livros de Bret Easton Ellis. Para um romance escrito na década de 90, é extramente cool as centenas de referências à cultura pop, à tudo que envolvia então a geração MTV, às drogas que fazem parte do universo clubber. O fato, porém, é que a linguagem irônica do Ellis no começo enche o saco pra caramba, mas logo é possível se deixar seduzir pelas piadinhas de seu personagem principal: um modelo em ascensão que se envolve na criação de um clube, sacaneia seu principal sócio (incluindo aí o fato de trepar com a mulher dele) e é “promovido” a detetive, partindo em uma viagem pela Europa atrás de uma mulher que já foi sua namorada, por um motivo que ele não julga capaz de dizer qual é, mas por uma quantia em dinheiro que lhe faz não querer questionar muito isso.

Enfim. A leitura continua, e, tal qual minha vida anda aos pedaços, achei que um esboço de resenha vinha bem a calhar: informação fragmentada tal qual andam meus dias.