11 novembro 2007

A Feira do Livro já não é mais aquela: pau na bunda dela

Neste exato momento, o xerife da Feira do Livro de Porto Alegre deve estar badalando seu sino pela praça da Alfândega, entregando rosas para as vendedoras das bancas de livros e encerrando, da maneira com que costuma acontecer há tantos anos este tradicional evento. [É lógico que deve estar havendo também alguma cantoria - alguma orquestra ou coral sei lá do quê deve estar entoando suas canções por lá]. O certo é que a Feira, em sua 53ª edição, me decepcionou sobremaneira. Já é fato que, há algumas edições, a Feira se transformou tão somente em um espaço - a meu ver - praticamente simbólico de comunhão com os livros. A badalação não é de hoje: poucos são os que realmente vão para comprar, muito pelos preços pouquíssimos convidadativos que cercam a Feira; aos amantes reais do livro, não há muita chance de se encontrar títulos que valham realmente à pena por valores decentes. É um discurso lugar-comum, mas o certo é que a internet e suas megastores gigantescas conseguem preços que deixam no chinelo todas estas pequenas livrarias que têm suas bancas na Feira. Mas é fato também que até os balaios, outrora a sensação e o divertimento de quem adora garimpar preciosidades com calma e atenção, se tornaram apenas caixotões repletos de publicações capazes de agradar tão somente ao gosto de velhotas adoradoras de Sidney Sheldon, Agatha Christie, títulos discutíveis de Jorge Amado [tudo?], Robin Cook e seus assemelhados. Um fenômeno, aliás que noto na Feira [eu, um observador contumaz dos movimentos que cercam os misteriosos balaios] é o quanto a obra de Robin Cook, em especial "Coma", um de seus maiores sucessos, é uma constante, ano após ano nos balaios.

Eu comprei "Travessuras da Menina Má", do Vargas Llosa, quase tão somente como a lembrança indispensável desta edição da Feira, só para não dizer que não comprei nada. Após uma pechinchada bonita, arrematei a obra por um preço decente, mas com certeza me tem sido bem mais satisfatório encontrar minhas obras de interesse em maravilhas como a Estante Virtual, com preços delícia e garantia de se encontrar as pérolas que vão montando minha biblioteca.

A Feira hoje, tristemente, não guarda nem a lembrança romântica da onipresença de uma preciosidade à altura da edição original de um "Phutatorius", de Jaime Rodrigues entre as surpresas do balaio. Só o que esta antes cobiçada atração da Feira tem para nos oferecer atualmente são exemplares de subliteratura, manuais técnicos, tosquices de auto-ajuda que não conseguiram lugar nem mesmo entre as ofertas normais e antiguidades de clássicos nacionais que não servem mais nem como leitura obrigatória no Vestibular da Ufrgs [exemplares encarquilhados e quebradiços de edições muuuuito antigas de "Iracema", "Senhora", "Ubirajara" e quetais].