28 dezembro 2007

Casa de praia

Faz cerca de três meses que estou morando na Cidade Baixa, o reduto clássico da noite portoalegrense. Apesar de ser um bairro que eu frequentei a vida inteira, tendo diversos amigos por aqui, é impressionante a sensação de descobertas constantes que tenho toda vez que saio para os mais prosaicos afazeres, como comprar pão na mercearia ao lado, por exemplo. Para quem morou 27 anos da vida no subúrbio, em um bairro a uma hora de distância do centro, com o hábito de me preparar para qualquer compromisso com, sei lá, três horas de antecedência, a praticidade é provavelmente uma das facilidades mais bacanas ao residir aqui na Lopo Gonçalves. Saber que, ao custo de algumas pernadas, posso estar na Osvaldo Aranha ou ali, na Erico Verissimo é destes prazeres inconscientes que me fazem feliz ao caminhar de chinelo pelo piso de concreto, por mais tenebroso que seja este calor causticante e maldito aqui da cidade. E é assim, na alegria de descobrir ruelas não-exploradas, que vou fazendo felizes os meus dias. Sabe aquela sensação de quando você aluga uma casa na praia e vai explorar os arredores? Para mim é a sensação constante que ainda me envolve: tudo é novo e descoberta e parece que quaisquer compras nos supermercados do bairro são para resolver os breves dias do veraneio.

Hoje, depois de fazer uma função na Santo Antônio, ruazinha perpendicular à Osvaldo Aranha, dei uma pernada relaxada pelo Bom Fim até chegar à Venâncio Aires e cumprir um cerimonial frequente, desde que descobri aquela "alameda" por ali. Entrei na Santa Teresinha, ruela pequeninha, mas por demais agradável, ao lado da igreja de mesmo nome e me pus a passear daquele jeito que os dias agitados não permitem nunca: descobrindo os detalhes de um muro florido, contemplando as casinhas cinquentenárias e as velhinhas vagarosas e curtindo um meio de tarde cujo vento agradável e céu predisposto à chuva ajudavam a tornar ainda melhor. Ali pelas tantas realmente começou a pingar, aquela chuvinha quente e muito rápida que só os dias de verão podem proporcionar. Em seguida, tomei o rumo contrário, caminhando em direção à casa e me dando conta de como é fácil encontrar pequenos prazeres no mais trivial dos dias.