26 dezembro 2007

Não há humanidade em Bret Easton Ellis

Lustres Serge Muille suspensos sobre assoalhos de ladrilhos verdes e brancos e tapetes desenhados por Christine Van Der Hurd. Por toda a parte há paredes envidraçadas e gigantescos candelabros de citronela e torres de vidro cheias de CDs e lareiras de vidro branco e cadeiras Dialogica cobertas de colchas Giant Textiles e portas forradas de couro e sistemas de som e poltronas Ruhlman na frente de aparelhos de TV ligados a um sistema digital de satélite que capta mais de quinhentos canais no mundo todo, e estantes de livros decoradas com arranjos cobrem as paredes por toda a parte e há pilhas de telefones celulares em todas as mesas. E nos quartos há cortinas escuras desenhadas por Mary Bright e tapetes Maurice Velle Keep e espriguiçadeiras Hans Wegner e divãs de couro Spinneybeck e sofás cobertos com chenille Larson Ladeados por árvores frutíferas anãs e as paredes de todos os quartos são forradas de couro. As camas foram feitas na Escandinávia e os lençóis e toalhas são Calvin Klein.

Para resenhar Glamorama, de Bret Easton Ellis, já foi dito que o autor "destrói o mundinho da moda com a mesma elegância de uma top model". Ok, retratar o fake mundinho fashion, mergulhar no infindável universo de cinismo, falsidade e aparências que cercam os modelos nas principais capitais da moda. Ok, ainda, nos apresentar claramente o sistema de valores que envolve a todos que fazem parte deste mundo, com sua predileção fútil por marcas e grifes consagradas, seus relacionamentos superficiais e seus empregos com nomes descolados [o livro é dos anos 90, quando ainda era descolado ser um VJ]. Uma coisa é querer destruir este mundinho das celebridades e do estrelato, como Bret parece querer - não é o que faz a cada livro? Eleger um "universo" e destruí-lo? Assim foi com os yuppies em Psicopata Americano e com os universitários em Regras da Atração. Outra coisa, bem diferente, é sentir tamanho fascínio por este mundo, que achar que compilar nomes de estrelas cinematográficas, marcas de cremes para as rugas embaixo dos olhos, endereços chiques de Nova Iorque e pratos elaborados da alta gastronomia, pode resultar em um romance verdadeiro e interessante. Tudo soa tão distante, tão frio e vazio como o mundo que ele quer nos apresentar.

O grande problema deste romance de Bret Easton Ellis, é que ali não há qualquer humanidade. E não me refiro à falta de humanidade que, é tão certo, ele quer nos evidenciar existir em seus personagens. É na sua literatura que ela não existe. Na segunda página, conforme ele faz uma lista infindável de marcas de tudo o que é imaginável [e tudo o que nem imaginávamos ser passíveis de ter marcas consagradas, como lenços de papel e outras besteiras do tipo], já nos fica bastante claro a qual universo pertence estes habitantes de seu romance. Não é preciso que a cada vez que um deles peça um copo d'água seja acompanhado da descrição detalhada do sapato que o maître usa, da origem geográfica dos candelabros e, por fim, que seja descrito com preciosismo que a água - Evian, é bom que se diga, já que ele não cansa de dizer - chegou na temperatura ideal para fazer corar a maquiagem Eye Fitness, da Clinique, que o protagonista está usando. Tudo bem, em alguns momentos, com a dose exata de cinismo e controle de narrativa que, ele, é bom dizer, muitas vezes mantém, isto pode ser divertido pra caralho. No entanto, imagine este estratagema se repetindo, ad nauseam, por 434 páginas! Não resta espaço nem para a imaginação, uma vez que cada cenário, trejeito, personagem, menear de cabeça, elevar de sobrancelha é descrito com preciosismo, sobrando nada para a participação do leitor. Nada é sutil ou deixado para interpretação dúbia. Não há meio-dizer: é praticamente um roteiro cinematográfico - provavelmente o motivo pelo qual cineastas adoram adaptar Ellis.

No fim das contas, o que fica claro é que Bret perdeu a mão. Ao querer nos fazer execrar a futilidade que domina este mundinho fashion, ele se embrenhou em tamanho fascínio pelo mesmo, que o enaltece. Na sua overdose de nomenclaturas de grifes, seus personagens foram soterrados, assim como a vida que, bem ou mal, se deveria entrever ali.

Me resta agora tentar descobrir onde Roger Avery, que já adaptou Regras da Atração, achará algum fio condutor neste romance, uma vez que ele acabou de comprar os direitos de adaptação da obra.