10 dezembro 2007

Que estranho são estes dias em Guantánamo

Trabalho em demasia, diversão ao mínimo. Penso no ideal utópico que prega como são divertidos os dias de trabalho em uma agência de propaganda. É a idéia geral, no final das contas, reforçada à grande pelos próprios publicitários que celebram as noites de pizza e o trabalho ininterrupto nos finais de semana. A coisa não está à tanto. Mas começa a me fraquejar o cérebro. Recorro ao guaraná cerebral e a outras artimanhas de eficácia duvidosa, a saber, um remedinho sinistro, vendido em flaconetes chamado "ligadão". Ok, não é nenhum Burn. Mas um Burn não é nenhum Burn. Na verdade, mesmo estes energéticos são um grande embuste. Se alguém souber a fórmula de algo que verdadeiramente me reanime os esforços, agradeço. Acho que anfetamina me faria aguentar o tranco com mais sorrisos no rosto - mas espero com paciência até que se seja realmente necessário me entregar de vez à expedientes mais extremos. A grande coisa é que me torno um sedentário - é tudo um moto-contínuo que alimenta a máquina: eu chego tarde do trabalho, eu chego cansado do trabalho, é tarde demais para encarar uma academia, estou cansando demais para encarar uma academia. Mas eu sei: a vida é feita de sacrifícios [é mesmo? quem convenciounou tal fato não terá sido um maldito porco capitalista? mas eu mesmo não me torno um porco capitalista ao me entregar de tal maneira ao trabalho, como o objetivo de quê? lucro? prazer profissional? sucesso profissional? ok, então quando receberei os louros e poderei descansar tranquilo à sombra dos coqueiros em uma idílica praia de areia branca, cangas límpidas e aqueles colares de flores?] e, a bem da verdade, somente eu escolhi meu caminho. Mas não posso deixar de fazer meu mea culpa quanto a isto: tenho me dedicado à literatura de maneira parca - porca seria a palavra mais adequada. Mesmo as leituras, estão pendentes à tempo: folheio algumas revistas para manter a sensação mentirosa de que estou informado, mas a verdade é que consumo mais e mais, me saltam aos olhos os produtos que são todos cools, e, mesmo eu, que deveria me julgar um conhecedor profundo dos meandros do universo da gastação, das estratégicas publicitárias, me rendo quase que estupidamente à "necessidade" de roupas novas e objetos descolês. Enfim: aguardo com ansiedade o próximo mês, quando, por meus planos, algumas coisas melhorarão e poderei escrever mais. E ler mais - por que é preciso, muito. Casares aguarda na minha prateleira. Alexandre Plosk também. Sem esquecer de Houllebecq que não cansa de me chamar. Mas é provável que Santiago Gamboa seja o primeiro a ser atendido.