18 fevereiro 2008

O cinema encontra o viral

O marketing viral, emaranhado de estratégias que se utilizam do próprio target como difusor dos objetivos comerciais, não é mais privilégio somente das grandes corporações e marcas, em seus meandros comunicacionais que, cada vez mais, precisam entreter. Agora, o entretenimento propriamente dito e a arte, têm usado de tal expediente - o marketing viral - para fazer valer seu maciço investimento em publicidade através da utilização das mais diversificadas mídias e propagadores de informação para chegar a um número maior de pessoas, de maneira não direta e contando sobretudo com o interesse que é capaz de causar e do natural interesse do ser humano em dividir aquilo o que é interessante. Buzz é a palavra de ordem: capacidade de um produto se tornar assunto, ser objeto de comentário e interesse em massa.


Year Zero, sexto álbum de estúdio do Nine Inch Nails se apoiou em uma série de recursos, os mais complexos possíveis, para espalhar sua teia de propagação, arrendar o interesse e a vontade louca de fazer parte daquele jogo que era proposto. A coisa entra em tal nível de sofisticação que, para os menos iniciados, parece encantar somente aos fãs mais obcecados. Não necessariamente. Uma prova disto é que um recente lançamento nos cinemas, Cloverfield - Monstro se utilizou da tática de plantar informações aqui e ali na internet, levantar boatos lá e acolá e colher os frutos em forma de grande bilheteria quando da sua estréia. Ok, isto não é novidade no cinema - A Bruxa de Blair já tinha, magistralmente, espalhado suas notícias sobre as lendas sobrenaturais que povoam o filme. O resultado foi ótimo. Um filme que, então, tinha um orçamento de 30 mil dólares, conquistou um sucesso absurdo nos cinemas e sua tática de publicidade se tornou exemplo a ser seguido dali para a frente.


E eis que Cloverfield repete a tática. Mais extensamente, é verdade. Afinal, aqui estamos falando de um filme com proposta beeeem mais ambiciosa que o supracitado: um arrasa-quarteirão hollywoodiano, produzido por ninguém menos que J.J. Abrams, espécie de Midas da indústria do entretenimento cinematográfico (para ter uma noção, o cara é o responsável por Lost).


Segundo o The Boston Herald: “uma nova era no marketing de cinema, quanto menos se sabe sobre um filme que vai estrear, mais buzz ele gera”. Para Cloverfield a coisa toda começou através de um trailler com pouca informação, mas cenas impactantes. Exibido antes das sessões de Transformers, ele mostrava cenas 'amadoras' de pessoas em uma festa de despedida, quando Manhattam começa a ser atacada por uma criatura não identificada. Gritaria, corre-corre, explosões, carros voando e, de repente, somente a cabeça da Estátua da Liberdade, arremessada até o prédio em frente onde ocorre a festa. O trailler termina sem identificar o nome, atores ou qualquer coisa que o valha. Somente uma data: 18-01-08.


Achou pouco? Foi o que bastou para uma horda ensandecida correr até o computador mais próximo atrás de informações sobre o que aquilo se tratava. O YouTube, ferramenta que tem se mostrado a aliada perfeita neste campo novo da publicidade, estava infestada com vídeos sobre o assunto. Especulações mil, imagens com a suposta identificação da criatura: um jogo perfeito de realidade alternativa (ARG) que arregimentou bloggers e interneteiros mundo afora.


Ok. Muita especulação de todos os lados: fanáticos analisando cada frame dos diversos vídeos que passaram a povoar a internet, todo mundo querendo descobrir imagens secretas e qualquer coisa que possa alimentar seu apetite pelo pioneirismo da descoberta. O resultado? A Paramount Pictures e J.J. Abrams felizes da vida, comemorando o imenso retorno de mídia espontânea que seu plano proporcionou.


O filme estréia e o que temos então? Muita expectativa, é verdade: afinal, é o filme que gerou esta grande repercussão, amealhando legião de obcecados em descobrir mais do que lhe era oferecido. E como produto cinematográfico? Ok, o filme é um ótimo produto de entretenimento, nada muito além disso. Como dito anteriormente, sua história tem início quando Rob Hawkins (Michael Stahl-David) se encontra às vésperas de sua viagem ao Japão, onde irá trabalhar no emprego sonhado. As primeiras cenas, feitas com sua câmera de alta qualidade, registram a manhã em que acorda feliz, depois de ter dormido com sua grande paixão, sua amiga Beth (Odette Yustman). Estes registros são cheios de ternura e felicidade, prenúncio do terror que virá. A câmera dá um salto e logo estamos atentos a festa de sua despedida. Agora, a câmera está nas mãos de seu melhor amigo, Hud (T.J. Miller), que vai registrando mensagens de apoio e congratulações a Rob. Eis que, sem aviso prévio, sem preparações quaisquer, começam as explosões, anunciando a chegada de uma criatura gigante à cidade.


A partir daí, o filme se concentra nas habilidades cinematográficas de Hud: é ele quem conduzirá a câmera por quase todo o filme, nos mostrando sob o seu ponto de vista, a seqüência de destruição que irrompe sob Manhattan e toda Nova Iorque, conforme a criatura - que, magistralmente, e aumentando o nosso nível de tensão, é pouco mostrada - continua a dilacerar com a cidade, restando aos militares pouco ou quase nada para fazer, tamanho é o poderio desta gigantesca mistura de Godzilla com lagarto extraterreno, que derruba arranha-céus e tudo o mais o que aparece pela frente. Tem início aí uma correria pela vida, algo fantástica e em muitos momentos inverossível, uma vez que Hud jamais desgruda de sua câmera, preocupado em registrar cada instante de agonia da trupe que sai por Manhatann dispostos a encontrar e salvar Beth. Uma solução formal muito interessante neste filme - que poderia ser uma seqüência ininterrupta desta correria desabalada - é o fato de o registro em questão estar sendo gravado sobre imagens previamente filmadas. Assim, são interrupções nesta filmagem que nos revelam momentos ternos anteriores, verdadeiros flash-backs que desenham o relacionamento de Rob e Beth e sua determinação de salvar o amor da sua vida.


Vale apontar a qualidade absurda dos efeitos visuais, o realismo da cidade sendo devastada e a ótima fotografia. O desespero dos personagens também é magistralmente orquestrado por Matt Reeves, o diretor da película. É claro que muitos irão apontar o ridículo da necessidade extrema de registro, que nem mesmo o maior horror e a possibilidade de ser trucidado pelo monstro gigantesco, faz com que o Hud nunca desligue o rec (algumas vezes ele se concentra em 'discursar' a respeito da grandeza do seu registro, de como os 'outros' tem o direito de saber o que aconteceu - tentativas fãs de encontrar justificativa, ok). O fim, longe de um final feliz, não nos esconde um fato, no entanto: aguardem, pois vem continuação de Cloverfield por aí.