02 março 2008

Confissões de um escritor vagabundo

Acho que tenho medo da literatura. Da minha literatura. De começá-la, novamente. Desde o fim do ano passado, estou protelando o ato de voltar à literatura, com desculpas as mais torpes possíveis. Desde a mudança - esta sim uma realidade, por que fiquei bastante tempo às voltas com as confusões que uma mudança de endereço gera em nossa vida, contando aí a adaptação ao espaço e a uma rotina de afazeres -, até a troca do instrumento de trabalho: o computador, uma tosqueira que tenho desde 2001, foi substituído por um laptop que, não obstante, ainda confere todo aquele cerimonial que hoje é emprestado ao ritual do fazer da literatura moderna, de poder escrever em qualquer lugar, sentado ao sofá com o computador no colo, ou, romanticamente, ao ar livre (e, confesso, o complicado é resistir às tentações de sair por aí tentando catar conexões wireless desavisadamente abertas...).

É verdade, também, que minha vida profissional deu uma guinada - assumi a função de Diretor de Criação na agência onde trabalho: uma overdose de responsabilidade, mas também de prazer, mas que, não posso negar, me deixa imerso no trabalho - mesmo quando não fisicamente, sempre me vejo às voltas com o pensamento criativo voltado para a propaganda e para a agência. Enfim: à meu favor também é preciso ser dito que perdi todo o começo do romance que vinha escrevendo, exatamente neste processo de troca de computadores, uma vez que o velhaco PC, à traição, detonou seu disco rígido, me fazendo ficar sem vários projetos literários já iniciados.

A verdade é que o processo inicial é doloroso, é demorado, é cansativo. Até encontrar a voz (ou vozes) narrativa correta, os pontos de vista - enfim, toda estas decisões estruturais que, só uma vez "descobertas" dão a liberdade para alçar todos os vôos que a história, dominada, me permitirá. É certo que devo voltar à "Frederico" - o nome provisório do meu romance - e resgatar, por lembrança, o que tinha até então: uma coleção de páginas não tão extensiva, mas que continham uma consistência que já me agradavam muito. Também é fato que este é o ano para diagramar e criar o projeto gráfico de "A sordidez das pequenas coisas", meu livro de contos já pronto que devo publicar pela Fósforo. Buenas, a editora, por fim, é outro trabalho a me distrair do fazer literário propriamente dito e me envolver com todo o trabalho de "bastidores" que envolve a publicação de um livro. Trabalho prazeroso, no entanto: um livro infanto-juvenil, que me foi apresentado, é provavelmente um dos bons trabalhos com que vou me envolver e deverá ser lançado pela Fósforo este ano.