03 setembro 2008

Instruções para sorrir sábado à tarde

Publicado no Paralelos Blog

O tempo inteiro eu tentei sabotar Juno. Armar-me de pré-concepções que servissem tão somente para corroborar a expectativa que eu tinha de que o filme se utilizava de todos os esquemas, estratégias e nomes de bandas pop possíveis para parecer descolado (ok, Belle & Sebastian, Cat Power, Velvet Underground e Buddy Holly estão ali, fazendo a trilha sonora, mas de maneira discreta). Estratagemas estes que justificariam o fato do filme ter se tornado tão cool, imagem de camiseta serigrafada no corpo de descolês. A informação de que o roteiro foi escrito por uma stripper-blogueira (a iniciante Diablo-Cody) tentava, algumas vezes, se atrelar à minha idéia fixa de que alguém tentando emular Daniel Clowes pudesse ser o responsável pela trama. Enfim, aproveitar um pouco da sensação Little Miss Sunshine e talvez até Napoleon Dynamite, este em uma proporção bem menor, é claro.

O filme ganhou Oscar pelo roteiro original? Azar. Há bastante tempo os prêmios do Oscar não me impressionam mais. BAFTA, Globo de OUro? E eu com isso? Eu resistia bravamente à não me tornar mais um deslumbradinho com um tipo de filme que, imaginava eu, em minha ingenuidade preconceituosa, estaria repleto de diálogos espertinhos, citações pretensamente obscuras e tudo o mais o que manda o “Manual do Filme ‘Independente’”. Mas, tão rápido quanto eu sou capaz de tecer opiniões mais ou menos conclusivas sobre algo que ainda nem vi, também sou capaz de me esforçar para acabar com elas. Assim, e principalmente por nutrir um carinho especial por Ellen Page (coisa meio similar ao nutrido por Natalie Portman), fiz do filme um dos meus programas do fim de semana.

Algum resenhista canhestro escreveu que Juno pode se enquadrar, assim como o filme supracitado, na categoria de filmes “vingança dos esquisitos”. Não precisou mais do que alguns minutos para eu rechaçar veementemente esta idéia. Juno não é um filme sobre esquisitos. Aliás, acho que um dos maiores méritos do filme é não ceder à utilização de uma série de tipos (mais ou menos os mesmos) que costumam rondar outros filmes que possam ser tachados como tal.

Em um filme como Little Miss Sunshine se consegue notar isto muito mais claramente, com a figura do tio que, além de gay é professor intelectualizado especialista obsessivo na obra de escritor; também há o avô viciado que ensina trejeitos de dança stripper para a neta que vai participar de um concurso infantil de miss; não esquecendo, é claro, do irmão mais velho que faz uma greve de silêncio, inconformado com qualquer coisa como a falta de sentido da vida. Napoleon Dynamite, nem se fala. Embora eu ache um filme divertido pra caramba, esquemático até a medula – e, mais importante, o que lhe salva um pouco, talvez seja o fato de ser escancaradamente feito de estereótipos esquisitos ao extremo: o próprio Napoleon, um nerd elevado à décima potência, seu amigo Pedro e sua “esquisite chicana”, bem como tudo o mais: irmão, tio, avó, amiga – estão todos reunidos. E, sem sombra de dúvida, Juno é uma obra muito mais bem resolvida que os próprios filhotes de Clowes, Ghost World e nem se compara à Art School Confidential, filme de 2006 de Terry Zwigoff, que no Brasil ganhou o inspiradíssimo título Uma Escola de Arte Muito Louca.

Dirigido por Jason Reitman (diretor do muito bacana Obrigado por Fumar), o filme nos apresenta à Juno e uma história bastante simples: adolescente de 16 anos engravida do amigo e colega de classe, Bleeker. No entanto, ela desiste de fazer um aborto e nem lhe passa pela cabeça algum tipo de tentativa romântica de formar um lar com o futuro pai que nem seu namorado é. Com a ajuda do pai, da madastra e da melhor amiga Leah, Juno decide dar o seu filho pra adoção, procurando por um casal perfeito para isto. Quando o encontra, Juno estabelece ao longo do processo da gravidez um relacionamento talvez um pouco inadequado com os futuros pais adotivos: o compositor de comerciais interpretado por Jason Bateman (da sensacional série e, infelizmente, não mais existente Arrested Development) e Jennifer Garner.

Em Juno os diálogos são muito espertos, ácidos e quase sempre muito bem humorados, sem que pareçam, em momento algum, forçados. Não há um esforço para que a menina pareça mais inteligente do que ela naturalmente parece: sem fazer concessão a estereótipos, Juno e os adolescentes da sua idade são engraçados e donos de um senso de humor que são extremamente normais nesta idade. A adolescente Juno é inteligente sem mostrar empáfia ou superioridade. Só lida com a situação de uma maneira tranqüila por estar cercada de pessoas que lhe querem bem e a confortam da maneira certa. Da mesma maneira, apesar de uma inocência e lirismo permear toda a obra, não aquelas constrangedoras provas de amizade absurda não há momentos epifânicos ou apoio fora do normal por parte de sua melhor amiga, Leah, por exemplo.

Definitivamente um filme de personagens, por uma trama que não cria grandes surpresas e reviravoltas, Juno se concentra na atuação magnífica e doce de Ellen Page, contracenando com o sempre ótimo Michael Cera, no papel de Bleeker.

Juno, me surpreendendo absurdamente no final das contas, é um filme sobre os possíveis caminhos, as diversas escolhas da vida. Honesto, sensível e inteligente. Do tipo que se assiste com um sorriso nos lábios e com o dedo no controle remoto para poder rever cenas e ouvir novamente diálogos fantásticos e divertidos.