19 outubro 2008

Mark Caufield

Publicado no Paralelos Blog

Não precisa ser um fã de John Lennon para saber a história que cerca seu assassinato. Talvez sendo um fã de cultura pop, se tenha conhecimento de detalhes mais específicos sobre a coisa toda. O certo é que estava quicando o motivo para a realização de um bom filme sobre este fato. Sem muitos meandros, não cedendo à tentação de investigar a infância ou mesmo o passado mais recente do assassino, Capítulo 27 vai direto ao ponto, concentrando-se, tão somente, no fim de semana de 8 de dezembro de 1980, data em que o fanático Mark Chapman, então com 25 anos, saiu do Havaí, onde trabalhava como vigia, e foi até Nova Iorque para matar o ídolo.

O que mais me interessava na trama toda era a relação de Chapman com O Apanhador no Campo de Centeio, clássico de J. D. Salinger, que ancora o filme todo, que tem roteiro e direção de Jarrett P. Schaefer, com sutileza e referências tão bacanas que tornam o filme muito mais prazeroso para quem já leu esta obra (o primeiro diálogo do filme, travado entre Chapman e o motorista de táxi, reproduz com perfeição o diálogo nonsense que Caufield tenta travar também com um taxista no livro, inquirindo para onde vão os patos quando o lago do Central Park congela...).

O certo é que Chapman identificava-se com Holden Caufield, protagonista de O Apanhador..., com sua pretensa rebeldia e inadequação ao sistema. O assassino disse ter sido o livro o catalisador de seu ato, mas o certo é que diferentes fatores influenciaram para isto, sendo o primeiro deles, com certeza, uma infância problemática que gerou seus distúrbios mentais, acentuados por um fanatismo religioso que encontrou, mais tarde, nas palavras e atos de John Lennon, fatos condenáveis para sua exacerbada crença cristã. Uma das cenas mais bacanas é um momento quase epifãnico para Chapman, quando se dá conta de uma sinistra ligação na história de John Lennon. Em dado momento, conversando com um fotógrafo em frente ao Dakota, ele lembra que naquele edifício foi filmado O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, cuja esposa, a atriz Sharon Tate, estava grávida de oito meses quando foi assassinada por Charles Manson, fã ardoroso dos Beatles (que acreditava, inclusive, que a banda screvia suas canções especial e unicamente para ele) e principalmente de John Lennon, que foi viver no prédio em questão.

O filme é protagonizado por Jared Leto, que engordou 29 quilos para interpretar Chapman e tem no elenco também Lindsay Lohan, como uma fã devota dos Beatles que se torna amiga da Chapman, na vigília em frente ao Edifício Dakota, onde Lennon morava e foi assassinado, com cinco tiros, depois de dar um autógrafo a Chapman. Condenado a prisão perpétua, Chapman teve o pedido de condicional por bom comportamento negado em 2000, 2002 e 2004.

A propósito, O Apanhador... tem somente 26 capítulo. O 27° seria o capítulo que Chapman acredita ser o enlace à sua própria história.