27 dezembro 2008

Saindo

Na modorra inevitável do fim dos dias, na melancolia insubstituível dos dias pré/pós Natal, no calor arrastado do verão na cidade cinza - Porto Alegre é o reduto aquele que sobra aos que não foram. E aqui ficamos nós - aqui fico eu - procurando sombra por entre os edifícios e encontrando resguardo nas páginas dos livros. Cortázar e sua obra crítica, seus artigos e ensaios são as leituras do verão citadino. Faço pilha dos seus escritos ao lado do laptop, vão ser meus companheiros na feitura final, na carpintaria esmiuçada por que passa meu livro, A sordidez das pequenas coisas, naquele estágio em que a supressão se apresenta impiedosa, cortando adjetivações, circunlóquios, franjas e toda série de barroquismos que ousam se apresentar em textos entusiasmadinhos demais.

Um a um, dilapido contos, faço seleção, sintonia fina para decidir quem resiste ao grupo final. Desde que no final se mantenha a coerência que - incoerência? - almejo com um livro de contos que tem por título um nome que não é de nenhum dos contos presentes. É, antes, tentativa temática; rascunho de estudo da sordidez humana, na forma ficcional e em todas suas manifestações - melhor, nem todas: fujo do escatológico, caminho para uns exercícios que buscam encontrar humanidade nos personagens nas situações mais improváveis. O estranhamento, em verdade, é o que vai permeando as tramas, de maneira que nem seria surpresa das surpresas se o título do livro mudasse. Mas não. Já é projeto antigo (no qual, é verdade, muita coisa diferente do original foi incluída e muita coisa pertencente ao original, cortada), e, é certo, não perde seu propósito a manutenção do título original. Enfim. Em breve, A sordidez.