24 outubro 2010

Breves entrevistas com homens hediondos, o filme

Eu tenho bastante consciência da minha pré-indisposição para assistir à versão cinematográfica de Breves entrevistas com homens hediondos. Por vários motivos que acabaram se confirmando ao longo do momento em que decidi assisti-lo – afinal, a curiosidade era maior que o pré-conceito e somente a confirmação dos defeitos que imaginei, de antemão, encontrar nele, poderiam me proporcionar aquele sentimento de superioridade e de suprema – ainda que sonhe bastante mesquinho, mas fazer o que? – satisfação em saber que meu instinto continua bastante apurado. Ao fim de tudo, confirmaram-se suspeitas que antevi já ao assistir seu trailer; suspeitas que, confesso, tentei minimizar ao pesquisar um tanto para saber todo o esforço que foi para seu diretor John Krasinski a realização do mesmo: e isto envolve o fato de que, para ele, Breves entrevistas com homens hediondos, o livro de David Foster Wallace, foi uma espécie de epifania. 

Consta que Krasinski era um estudante, em 1999, quando decidiu virar ator depois de uma leitura do supracitado livro. Teria tentando por anos obter os direitos de filmagem, sem ser levado a sério, até que conseguiu o papel de Jim, na série The Office. Esta informação está no blog de Alexandre Rodrigues, do qual também retiro o seguinte trecho de conversa que teria acontecido entre Krasinski e Foster Wallace:

Ele perguntou: “Sobre o que é o script?” Eu respondi: “Uma mulher fazendo sua dissertação sobre feminismo em busca do  papel do homem moderno na era pós-feminista”. Houve um silêncio. E ele disse: “Eu nunca consegui pensar em como fazer todos (os casos) se relacionarem juntos”. O que soou bárbaro. Foi provavelmente um dos maiores dias da minha vida.

Não é preciso ser um gênio para saber que cinema e literatura são duas formas de expressões artísticas que não devem ser comparadas. Que a adaptação de uma obra literária não necessariamente precisa manter suas mesmas abordagens e não se deve esperar que esta adaptação cinematográfica seja uma reprodução fiel do livro. Pela óbvia impossibilidade da coisa. Enfim, textos muito mais extensos por aí dão conta da miríade de apreensões, sensações e sentimentos capazes de compreender uma obra literária e que não poderiam nunca encontrar representação quando traduzidos em experiência imagética. Fato é, que quando o cinema se utiliza de obras literária para suas realizações, na maioria das vezes busca bem mais do que os argumentos contidos no livro. Que se atrelar à obra, ao seu sucesso comercial, ser sua representação em movimento. Logo, também não é preciso ser um gênio para saber que, se você leu o livro, perseguirá comparações entre um e outro, ira à cata de defeitos e, claro, os encontrará.

O que é preciso deixar claro: Breves entrevistas com homens hediondos, para quem não sabe, é um livro de contos, que possui quatro contos com este título. Estes contos são no formato de respostas a perguntas que não se sabe quais são – elas são representadas pela letra “P” (lembra um programa exibido pela TVE chamado Ensaio cuja pergunta nunca era ouvida, nos restando somente elaborá-las a partir das respostas dos artistas convidados). Nestes contos os homens elaboram seus argumentos a alguma entrevistadora sobre a qual nunca sabemos nada, assim como não fica clara a motivação das entrevistas, que envolvem assuntos desde a estratégia de um homem usar seu braço defeituoso para sensibilizar mulheres, conseguindo delas favores sexuais, até uma teoria bastante minuciosa de por que ser estuprada por uma gangue pode não ser uma experiência tão terrível para uma mulher. 





Entre uma e outra entrevista, assuntos que quedam ao estranhamento divertido, como a do sujeito que berra uma longa saudação democrática toda vez que atinge o orgasmo e mesmo investigações mais dolorosas, como o homem que relembra a profissão do pai, encarregado de um banheiro de hotel de luxo, responsável pelo asseio do local, servindo aos mais ricos homens e convivendo com uma rotina de excreções sem nunca reclamar. O fato é que Foster Wallace possui uma escrita irrepreensível, repleta de ironia, capaz de fazer apuradas análises sobre temas como mídia, sexo e o que mais quiser sem cair em proselitismo ou parecer pedante. Condensa em diminutos ou longos textos motivos mais do que suficientes para ter sido considerado pela crítica especializada dos EUA como dono de uma das prosas mais influentes de sua geração. Fato que, corroborado por suas diversas obras (sendo que somente Breves entrevistas... foi até agora traduzida para o Brasil), não será seu suicídio, em 2008, que mudará tão cedo.

O que me incomodou logo de cara nesta adaptação foi o tom “divertidinho” dado à quase todo o filme. A trama é amarrada por uma personagem, Sara Quinn, interpretada por Julianne Nicholson, doutoranda em antropologia que, após ser deixada pelo namorado, o pianista  Ryan – papel de Krasinski – realiza uma série de entrevistas com homens em um esforço para descobrir os impulsores de seus comportamentos, querendo respostas para o quanto os movimentos feministas influenciaram suas vidas.

O filme inteiro é entrecortado por estas entrevistas, enumeradas, e a verdade é que não sabemos o resultado – e se haverá um – para o trabalho de Sara, uma vez que a personagem é passiva, servindo tão somente como o elemento de ligação para os personagens entrevistados, desfilando seu corolário de argumentos tal qual no livro. O filme tem, na maioria das vezes, aquela leveza que pasteuriza tudo em comédia inconseqüente, em uma montagem que, durante grande parte do filme, continua remetendo a um trailer, sem concatenação razoável e se utilizando de estratégias tais quais personagens que falam com a câmera, transitando por ambientes e pessoas fazendo observações sobre os mesmos, sem serem notados pelos outros personagens que ali estão.

Quase que na exata metade do filme, ele muda seu tom, se pretendendo mais sério e chocante – é quando começa o argumento tirado da entrevista com o homem que consegue encontrar fundamentações positivas no fato de uma mulher ser violentamente abusada. Este papel é entregue para o aluno orientando de Sara, que a persegue querendo saber qual sua impressão sobre sua tese, na qual defende este ponto de vista. É um dos melhores momentos do filme, com uma boa resolução dramática, tal qual a do personagem narrando a profissão de seu pai, o encarregado de banheiro. Nesta, a descrição se intercala entre este personagem e o ator que interpreta seu pai, os dois se encontrando em um presente-passado bastante interessante, sendo um dos poucos recursos de metalinguagem que, a meu ver, funcionam com perfeição no filme (há, inclusive, uma “invasão” de cenários, já que podemos ver o ambiente da entrevista no mesmo ambiente do banheiro relembrado do passado). Este tom se estende até o final do filme, intercalado pela conclusão de uma ou outra entrevista que foi sendo mostrada em trechos, e é a maneira que mais se aproxima da ironia e crueza contida na obra de Foster Wallace. Se toda a adaptação tivesse tido tal abordagem, não deixaria a impressão de dois filmes em um, com momentos tão nitidamente contrastantes, que acabaram resultando em um filme infelizmente não memorável.