10 dezembro 2010

Uma velha Facit

Ritmo, sonoridade, fetichismo. Sei lá qual a palavra, não sei bem o sentimento, mas deve haver algo na máquina datilográfica além de uma tardia relação de nostalgia. A falta que a velha traquitana mecânica nos faz deve ser algo mais que a falta do charme old school com que somos acometidos depois que estas peças já saíram de moda e utilidade. Afinal, não há praticidade em seu uso, não há agilidade em sua função. Ao menos nenhuma que seja maior que nossa sensação fluida ao ver os dedos percorrerem velozmente suas teclas. Isso se não forem teclas emperradas, se formos felizes proprietários de garbosas Remingtons, Olivettis, Coronas, Facits e sei lá que outras marcas, azeitadas para manter a velocidade.

Deve ser algo no mise-en-scéne que há na troca da fita, quando a mesma já começa a grafar com força parca a palavra no papel ofício. A possibilidade de cadenciarmos com a força que quisermos como cada tipo se imprimirá ao papel. Ou uma coisa qualquer no ato manual, nas digitais deixadas em borrões na folha, porque trocamos a fita e não lavamos as mãos, partindo pro ofício - que, julgamos - enobrecedor de encher de palavras aquela página que se juntará as outras que fazem uma montanha ao lado da máquina - tão distante do arquivo digital, cujas páginas vão se ocultando. Com o ofício mecânico, com o uso da máquina datilográfica, não: se 57 páginas foram preenchidas de tipos, as mesmas estarão se amontando na pilha ao lado, com seus escritos repletos de XXXXXXX para cobrir palavras indesejadas, trechos inadequados, expressões inoportunas. Manchas ainda úmidas de corretivo também estarão ali, cumprindo a obrigação de ocultar o que não funcionava, o que era errôneo ou tosco. E depois serão companheiros de rasuras feitas à caneta, grifos e anotações nas margens de suas páginas. Hoje, tão difícil já é sequer imprimir os escritos feitos através dos assépticos programas de editoração eletrônica, quanto mais resistir às funções de auto-correção. Balões e notas fazem o papel de avisar que em algum lugar existem itens a serem retificados. E ridícula é a possibilidade de habilitarmos sons de teclados datilográficos para escrevermos no macio teclado do notebook, em uma ilusão vã de que aquilo nos aproxima de outra era.

Mas é nostalgia, eu sei. Que deve fazer par com o sonho moleque de que os leitores digitais não acabem com os amados livros em papel. Romantismo, resistência débil ao natural avanço. Se lá qual a palavra, não sei bem o sentimento. Mas me deu uma saudade danada das máquinas datilográficas. Da velha Facit que se enche de pó em algum recôndito canto no armário da casa de meus pais.