24 fevereiro 2011

Black Swan

O mito do artista está presente na obra inteira - só se é artista se ceder aos impulsos considerados romanticamente como viver em plenitude (cf. Bukowski, Charles). E é o personagem de Vincent Cassel quem propaga isto à menor oportunidade possível: como Thomas, diretor da companhia de balé de que faz parte Nina (Natalie Portman), ele insiste em atacar a demasiada ingenuidade ou suavidade dela, sua falta de experiência sexual, todos os predicados que a tornam inadequada para viver o cisne negro na sua nova montagem de O lago dos cisnes. Há uma insistência sobre ela buscar "paixão" em seus movimentos, esquecer que técnica não é tudo. No perturbado e invejoso mundo do balé está dado o start para que a frágil Nina (ainda por cima à sombra de uma mãe superprotetora e, ex-bailarina, invejosa, a ótima Barbara Hershey) adentre em uma espiral de loucura, nos presentando com sua paranóia quando se vê ameaçada pela sensual e liberta Lily (Mila Kunis), bailarina vinda de San Francisco, que desponta rapidamente na companhia e rivaliza com Nina em um antagonismo marcado como preto sobre branco. Mas e então o que é histeria, o que é a realidade, afinal, o que é a vida? Darren Aronofsky às vezes pesa a mão. A busca de Nina, sua transformação, sua dedicação para interpretar também o cisne negro na montagem da obra de Tchaikovsky (já que para o cisne branco, Thomas diz que ela é perfeita) emprega uma saraivada de metáforas visuais. É um delírio imagético que, com parcimônia, resulta num belo namoro com o fantástico. A repetição, no entanto, é desnecessária: a sensacional interpretação de Natalie Portman é o suficiente para nos fazer crer na perda  de sua razão. 

E então deslumbrantes cenas de balé, um clima que nos presenteia sempre com o horror, não obstante toda a delicadeza da dança. Fotografia e edição incríveis (a demora sobre detalhes é primorosa: a preparação da sapatilha de balé), o ápice do erotismo reunindo Portman e Kunis e o melhor: um flerte constante com a dor física, mesmo quando fruto da imaginação de Nina. A ferida nas costas, a unha quebrada no dedo do pé - tudo é lancinante para crermos no espetáculo movido a dor e pressão existente nos bastidores de uma montagem de balé, resultando em um filme que alterna crueza e sensibilidade em doses equilibradas. Sensacional.