02 fevereiro 2011

O vencedor

Não me importa que o protagonista de O vencedor seja Mark Wahlberg. Desde todo o burburinho em torno do filme, desde todas as notícias a respeito, desde seu trailer eu sabia que o filme pertencia a Christian Bale. Quando as indicações ao Oscar  corroboraram tal fato, eu pensei: ok, é a hora de conferir. Mesmo fã de Touro Indomável, Ali e seus quetais (mesmo Rocky e seus choros convulsionados - mas somente o original, antes de sermos violentados por qualquer coisa, menos boxe, que o ilustre Dolph Lundgren introduziu nas tôscas sequencias), contraditoriamente não estava me predispondo a vê-lo para torcer pela escalada de Micky Ward, papel de Wahlberg. Porque, convenhamos: mesmo considerando seu ótimo Dignam em Os Infiltrados, seu divertido Dirk Diggles em Boogie Nights (e por toda sua contribuição às séries de qualidade, ao produzir In Treatment, Entourage e Boardwalk Empires), Mark Wahlberg será sempre o cara de Good Vibrations. Então, não há muito o que se esperar, além de alguns lampejos muito eficientes de Wahlberg, um ator sempre ok, mas nunca surpreendente. Quando você se dá conta do estado tísico em que Bale chegou - mais uma vez, quase novamente tão assustador quanto em O operário -, e que isto não é embalagem, mas somente mais um adendo na sensacional interpretação que ele novamente entrega, você sabe, sem sombra de dúvidas que o filme é de Christian Bale.

É Christian Bale o mega carismático Dicky Eklund,  ex-lutador que teve seu momento de brilho ao levar à lona Sugar Ray Leonard. Irmão de Micky, afundado e decadente, fumando crack em uma pocilga imunda cercado de marginais e aplicando golpes com sua namorada prostituta, é este personagem que rouba o filme. Com sua energia incansável, sua trajetória errante, por vezes é o cafajeste treinador que deixa o irmão lutar com um oponente muito maior, a fim de garantir sua grana e de sua mãe, "empresária" do irmão. O irresponsável que chega atrasado aos treinos, quase acabando com a ainda irregular carreira de seu irmão. Em outros momentos é o profissional capaz de instruir seu irmão com uma seqüência de golpes tão simples quanto genial.  São estas contraditoriedades que criam uma atmosfera em que se alternam sentimentos de lealdade, amor e ódio supremo entre estes irmãos. Um filme que, mais do que somente outro perfil de lutador em superação,  nos entrega um drama sensacional mostrando que decadência e sucesso guardam ínfimos  milímetros de distância.