11 abril 2011

Estupendas são as tardes na cidade


Assim, então: você encontra ex-um colega na rua, um destes que não via há tanto tempo. E não é porque vocês tivessem algum tipo de afinidade, não é nada disto. É só a coisa de Claro, vamos jantar juntos, relembrar aquela época! No meio do caminho você se dá conta que nem terão tanto sobre o que falar – que episódios em comum partilharam? Quem era mesmo aquele outro que estava sempre com vocês quando saiam para apostar nos cavalos? Seus pensamentos são interrompidos pela presença de uma mulher que caminha com os dois enquanto procuram um restaurante por ali. Não tinha tomado consciência: é uma mulher de idade próxima à sua e vai de braço dado com seu ex-colega. É a esposa dele, estava dentro da farmácia enquanto vocês dois se cumprimentavam na calçada com uma efusão que tinha mais de inconsequencia do que de verdade.

Embora seu ex-colega não faça qualquer esforço para apresentá-la formalmente, você meneia sua cabeça, gentil, a mão no topo do chapéu. Ela esboça um meio sorriso, tímida em excesso, triste em demasia. Parece que andou chorando, você percebe. Percebe também um roxo já um tanto esmaecido sob o olho direito, mas vá lá, tantas formas há para se machucar assim. Alergia. O restaurante não é de nenhum tipo que você escolheria, mas com a mesma veemência com que conduz a esposa para dentro, seu ex-colega não tem mais do que seis palavras para convencê-lo de que é o suficiente para vocês. O restaurante. Onde alguém vem pegar seu chapéu e o gabardine e as mulheres parecem todas vulgares demais. Um instante e já estão escolhendo o filé de pescada com a salada de vagem; seu ex-colega é quem pede pela esposa, que comenta, olhando assim com tanto interesse para os bordados da toalha de mesa, que está ótimo, pode ser sim.

Você não sabe bem em que instante começa a acontecer, é provável que tenha se instaurado enquanto você pediu licença para ir ao banheiro. O que acontece é que agora seu ex-colega está gritando com a esposa e nem parece se importar com todos os olhares à volta, as cabeças se movimentando e as expressões de desaprovação. Não que você não tente apaziguar, perguntar O que é isto […….]? (você se dá conta que há algum tempo vem substituindo o nome de seu ex-colega – que não conseguiu lembrar qual era, desde que o encontrou – por expressões como “meu camarada”, “meu chapa”, “meu velho”. Então, tem um quê de cômico sua pergunta O que é isto, meu velho?). Seu ex-colega faz pouco caso de sua intervenção, resmunga coisas como É uma vagabunda, mesmo; Porca do rabo gordo; Falastrona ignorante e outras expressões que lhe escapam, porque você não quer lembrar de coisas assim.

Uma desculpa qualquer já é o suficente para sair dali, você está a caminho de casa, nem experimentou o filé de pescada e muito menos a salada de vagem. Durante três ou cinco semanas a lembrança permanece com você Como pode tratar uma esposa assim? Como ela aceita?, mas em breve suas lembranças são obliteradas por um novo filme que entra em cartaz e aquele artigo do sujeito insistindo que bebês não precisam de chupeta, é um vício que todos deveriam evitar para seus filhos.

Passam-se cinco ou sete anos e bem daquele jeito que aconteceu da primeira vez, saído não se sabe de onde, você encontra o mesmo ex-colega em uma rua qualquer. Mais calvo e gordo, mas não há dúvida: é ele mesmo. Ao lado, a esposa é a mesma, assim como sua expressão. Tímida, outra vez mal retribui seu cumprimento. Hoje, você nem sabe dizer porque, como acontecem estas coisas? O fato é que meia hora depois você está no apartamento dos dois, mastigando nozes quebradas com um destes quebradores de nozes e bebendo vodka enquanto uma criança berra em um berço que fica por ali, perto do aquecedor da sala. A esposa do seu ex-colega tenta de todas as maneiras fazer a criança parar de chorar, mas não há nada que ponha fim há tanto berreiro.

Seu ex-colega, você vê, está perdendo a paciência. Como ele insistia para que vocês assistissem a um jogo na televisão, com o berreiro da criança não é possível ouvir nada. Como a mesma truculência você presenciou da outra vez, seu ex-colega chama a esposa de Inútil, Vaca gorda que não é capaz de cuidar de uma criança e coisas deste tipo aí. Ela chora, você ouve suas fungadas e sabe que ela chora. O que ela faz então é ir para o fundo do apartamento, trancar-se no quarto e em breve não ouvimos o choro da criança. Não demora muito para que ela retorne, a esposa do seu ex-colega retorna, já bem tranquila e com um semi-sorriso nos lábios. É um semi-sorriso, não resta dúvida, e ele ainda permanece ali, nos lábios, quando ela fala Em breve o filé de pescada fica pronto. Ah, fiz também salada de vagem. Como naquela noite, lembra? Que noite agradável aquela!