04 abril 2011

Jazz bem nos fundos

Um lugar assim lá no fundo. Difícil de chegar e do qual muito já se ouviu falar. Ao fim de um beco, de um estacionamento, de outro estacionamento.  Jazz nos Fundos. Parece um recanto para os iniciados, é verdade. A chuva - fina, mas na intensidade suficiente para fazer com que qualquer programa sob sua existência se transforme em programa de índio - dá o tom da coisa toda: valerá a pena? Guardadores manobram seu carro enquanto você passa por alguns orelhões empilhados e vislumbra o palco distante: há um piano de cauda, um fulano afina um saxofone. A moça na recepção informa, fazendo coro ao cartaz atrás dela, à informação nas comandas: "só aceitamos dinheiro e cheque". O temor se estabelece, vamos patrocinar a lavagem de dinheiro de uma seita subterrânea?  Ok, já que estamos aqui. E lá vai o grupo de incautos sacar no caixa 24h mais próximo que de próximo não tem nada. E ali estão eles de volta, semi-molhados, empolgados, partícipes: yes, jazz! Há a coisa toda de fazer parte, iniciar-se e poder dizer "eu estive lá". É bem verdade que, desde então, estabelece-se uma miríade de assuntos que podem se tornar a alegria de tardes vindouras. Muito vindouras. Quando então, junto ao seu neto, poderá dizer "e foi uma dificuldade, muitos becos precisaram ser percorridos, senhas repetidas, movimentos estranhos e gestos até que fôssemos aceitos e nossa entrada permitida e então...".

Então um bar. Mal ajambrado e com pouca luz o suficiente para parecer cool. Feito de telhas metálicas compondo paredes, molduras sem conteúdo, mesas altas e cadeiras de diferentes feições. A moça diz que a cadeira maior não pode ser movimentada, sob risco de trancar a passagem. Os presentes, todos iniciados. Uma horda cheia de empolgação suficiente para manter o lugar como um reduto de poucos. Sábios e fiéis. O cardápio, dividido irmamente, ostenta aquela meia dúzia de lugares-comuns: amendoins, queijos, azeitonas e quetais. Acepipes para forrar o estômago para as cervejas que são respeitosas, é bem verdade. Então você aguarda o jazz. A moça enlouquece no piano, o baterista repinica suas caixas, o baixolão impressiona dando entrada para o cara do sax. E ele vem, soprando cheio de vontade, junto com o sujeito no pandeiro (?). Mas não era jazz? Naquela noite, ficou só no nome. Enquanto esperávamos, ansiosos, standards intermináveis e perturbados, solos infindáveis emulando um ensandecido Coltrane, o jazz ficou só no nome e tivemos que nos contentar com aqueles choros, relegando o jazz aos fundos de algum outro lugar que não sabemos qual. Longe dali.