28 maio 2011

As primeiras impressões de “Liberdade”





Dezenas de personagens, uma miríade veloz e sucessiva de acontecimentos ligando uma considerável passagem de anos. E estamos apenas na primeira parte de Liberdade (Companhia da Letrastradução de Sergio Flaksman, 608 páginas, R$ 46,50), de Jonathan Franzen. Impossível não querer estabelecer um paralelo ao seu romance anterior, As correções


Muito diferente da minuciosa lente de aumento com que nos apresentava o casal Lambert, no capítulo de abertura daquele romance (com uma calma que remetia a lentidão do idoso casal, com suas pequenas rusgas de convivência tediosa), dedicando um tempo considerável a esmiuçar só eles – e só trechos mais adiante nos apresentando, com parcimônia parecida e detalhismos virtusosos, os outros personagens componentes da trama, em Liberdade, de cara, somos avassalados pelo quadro ágil com que desenha uma parcela da classe média americana. Mais especificamente os moradores de Ramsey Hill, vizinhos em Barrier Street.  


A trama do livro se concentra em Walter e Patty Berglund e no roqueiro Richard Katz. Mas, em sua primeira parte, denominada “Bons Vizinhos”, ficamos conhecendo os dois primeiros, mais seus filhos Jessica e Joey, além dos vizinhos Connie e Carol Monaghan, Merrie e Seth Paulsen e Blake. 


Fofocas, intrigas, rusgas, competitividade, disfuncionalidade familiar: está tudo ali. Temperados com sutileza – e imagino o quanto isto se abrandará – pelas referências políticas. Um comentário sobre liberalismo aqui, outro sobre reaganismo acolá. O casal de vizinhos Merrie e Seth Paulsen aqui funcionam como um coro grego, reiterando, com a acidez de seus comentários, a falta de “substância política” e extrema permissividade da protagonista Patty para com seus filhos e a frouxidão no trato com seu marido, Walter (a corrosividade crítica é mais intensa principalmente em Merrie, que não esconde uma implicância pela jovialidade e frescor de Patty, ex-jogadora de basquete; já Seth não esconde uma efusão positiva em demasia para com a mulher de Walter). 


Ainda há muita leitura pela frente, mas, não obstante a ambição temática de Franzen exposta já nestas primeiras páginas, a leitura é fluida e é certo que isto se dará ao longe de todas suas 608 – quem o conhece de outros livros, assegura a limpidez de sua prosa, de frases precisas e quase sempre entremeadas do cinismo com que exerce sua crítica ao que seja: política americana, decadência do capitalismo, consumismo, etc. As resenhas espalhadas por aí asseguram que até a ornitofilia e as questões de sustentabilidade serão motes importantes neste seu livro. 


Distante de malabarismos formais, fragmentação de discurso e todo o legado do modernismo e pós-modernismo, Franzen trilha o caminho da linearidade e elegância. Com uma história que nos conquista de cara já nas primeiras linhas, não me parece à toa tanta festividade em torno deste escritor, um sujeito dedicado ao ofício que dispensou nove anos em cima de seu último livro, sempre afastado dos modismos literários e buscando resgatar as qualidades do grande romance. Contradição nestes tempos de velocidade e efemeridade? Franzen justifica, em entrevistas para a Ilustrada, da Folha de S. Paulo: “Não acredito que as pessoas que gostam de ler livro queiram um romance curto.”


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UPDATE [30/05]: Uma frase de Sergio Rodrigues aqui traduz com precisão um incômodo que senti com a velocidade exacerbada com que o painel geral já nos é apresentado nesta primeira parte do livro (nos avassalando, como escrevi acima):  Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social”.