24 setembro 2011

Do que eu falo quando falo de Jabuti

Seria blasè e extremamente mentiroso dizer que não estou exultante com o fato do meu primeiro livro solo, A sordidez das pequenas coisas, estar entre os finalistas do Prêmio Jabuti 2011. Principalmente, talvez, pelo enunciado acima: meu primeiro livro solo. Não, assim como não sou blasè em relação à indicação, também não há nenhuma atitude de convencimento em relação a isto  meu primeiro livro solo ser indicado ao mais importante prêmio literário brasileiro. Mentiroso seria dizer que, como escritor, este reconhecimento não me emociona profundamente.

Fora o susto, a surpresa total quando vi o tuíte do Xerxenesky anunciando isto, a primeira sensação que tive, de forma muito intensa, foi de reconhecimento. A segunda, uma certificação de que poderia continuar apostando no que escolhi fazer na literatura. É claro que, independente desta indicação, eu iria continuar fazendo o que estou fazendo quando escrevo ficção. 

Em um debate muito recente no evento Encontros de Interrogação, do Itaú Cultural, Carola Saavedra resumiu muito coerentemente o que talvez possa ser também chamado como "voz literária": a gente escreve do jeito que sabe. E, sem querer soar "inovador", "transgressor" ou qualquer termo do tipo, não foram poucos os que esboçaram um certo estranhamento em relação a estes meus contos de estreia. Como escreveu Luiz Paulo Faccioli, na gentil orelha para o meu livro, "a dificuldade da forma breve é convencer com pouco, e só por isso o conto se prende a tantos cânones que, ao longo dos anos, seguem sinalizando o que funciona e o que deve ser evitado". Não creio ter transgredido nenhum cânone, mas é certo que houve a intenção de experimentar. Afinal, se fosse para ficar fazendo exatamente o mesmo, melhor seria me contentar com o que os mestres já fizeram tão bem.

Mas este post não é para tentar buscar justificativas para a indicação. Na verdade é mais para tornar factível, a mim mesmo, isto. Sim, porque foram muitos instantes de incredulidade, ainda que lendo o meu nome e do meu livro estampado na página dos finalistas. Não por não acreditar no que faço — se fosse assim, não escreveria. Se fosse assim, não teria, pessoalmente, ido levar os livros na CBL. Mas pelo reconhecimento. De uma instituição e de um prêmio tão respeitados, corroborando o que algumas ótimas resenhas disseram a respeito deste tão acalentado livro. E mais do que pelo reconhecimento, por este green card, que me afirma, sem titubeio: é por aí. Esta certificação que me faz sentar e enfrentar mais caudalosas páginas do romance que estou escrevendo agora e pensar: é por aí. Algo mais ou menos semelhante ao que tive, após tantos anos escrevendo, ao encontrar minha voz literária. E, a partir daquele momento, ficar extremamente feliz cada vez que escrevo do único jeito que sei.


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(*O título do post é uma emulação ao título do livro de Haruki Murakami, Do que eu falo quando falo de corrida.)