24 janeiro 2012

Fragmentos (#2)

Já estávamos a meio caminho de casa quando o choro parou. Parou de repente, sem qualquer mudança no tom e na intensidade. Bebette não disse nada; eu não despreguei os olhos da pista. Wilder estava sentado entre nós, olhando para o rádio. Eu esperava que Bebette trocasse um olhar comigo por detrás do menino, por cima de sua cabeça, para manifestar alívio, felicidade, expectativa esperançosa. Eu não sabia como estava me sentindo, e queria uma pista. Porém ela olhava fixamente para a frente, como se temesse que qualquer alteração na delicada textura de sons, movimentos e expressões pudesse ter o efeito de fazer com que a choradeira recomeçasse. 

Quando chegamos em casa, ninguém disse nada. Todos andavam silenciosamente, com olhares disfarçados de um cômoda a outro, observando o menino a distância, com olhares disfarçados e respeitosos. Quando ele pediu leite, Denise correu silenciosamente até a cozinha, descalça, de pijama, percebendo que a economia de movimentos e a leveza de passos evitariam quebrar a atmosfera grave e dramática que o menino impusera à casa. Ele bebeu o leite com um único gole poderoso, ainda vestido, a luva presa na manga da camisa.

Todos o observavam com uma espécie de temor respeitoso. Quase sete horas chorando a sério, sem parar. Era como se ele tivesse acabado de chegar de uma peregrinação a um lugar remoto e sagrado, um deserto vazio ou uma cordilheira coberta de neve    um lugar onde dizem-se palavras, vêem-se coisas, atingem-se certas distâncias que nós, em nosso cotidiano prosaico, temos que encarar com a mistura de reverência e deslumbramento que reservamos para as dimensões mais sublimes e mais difíceis.

(Don DeLillo, "Ruído Branco". Companhia das Letras, 1987. Pg. 81)