25 janeiro 2012

Policial pop brazuca

2 Coelhos é exagerado, deslumbrado, videoclíptico, americanizado e isto não é necessariamente ruim. Desde o trailer, eu já esperava pelo que o filme me entregou. Não, sejamos francos: mesmo incluído todos os "defeitos" possíveis que tentarei relacionar, ele me surpreendeu positivamente. 

Primeiro, pela honestidade. É um policial brasileiro sem medo de usar das regras do   gênero. O diretor e roteirista Afonso Poyart nunca escondeu (e nem poderia) que bebeu e recheou seu filme de todas as fontes facilmente identificáveis: Tarantino, Guy Ritchie (muito Guy Ritchie), Michel Mann e Zach Snyder estão todos lá. E, dado tudo isto, é muito fácil não gostar do filme. É certo que o primeiro ato contribui muito para isto: o diretor recheou as cenas iniciais com uma quantidade tamanha de grafismos, sobreposições de letterings tremores de câmera, edição frenética que é preciso uma certa fé para seguir adiante. Mas vamos lá, de coração aberto, disposto a ser cúmplice de uma produção brasileira que quis trazer algo de novo, usando de malandragem (era mais barato fazer uma porrada de cenas com 3D e quetais do que filmar em live action certas passagens, por exemplo, como disse o diretor em entrevista; ilustrações também serviram algumas vezes para explicar subtramas com um certo didatismo, mas com muita graça) para ousar sem medo de parecer pastiche. Parece pastiche? Às vezes sim, mas com qualidade. E isto é impressionante - mesmo que contraditório. Pois, diferente de vergonhas-alheias como Assalto ao Banco Central, só para ficarmos em um só exemplo, 2 Coelhos consegue ser bem sucedido uma bela quantidade de vezes. 


O fato de não ter se esquecido do roteiro em detrimento da punheta visual merece ser muito festejado. Não-linear, repleto de ganchos que o obrigam a ir e vir para explicar o que parecem ser arestas soltas, constrói uma história espertíssima, ainda que com um excesso de maneirismos que, às vezes, pesa a mão. Tem ótima atuação de Fernando Alves Pinto, como o protagonista Edgar, além da sempre delícia Alessandra Negrini (Julia), Caco Ciocler (Walter), Marat Descartes (Maicon) e todos os asseclas marginais com seus diálogos engraçados à la Tarantino. Todos devidamente envolvidos em cenas de tiroteio em câmera lenta, perseguição automobilística, trilha com Radiohead e uma batelada de referências pop desavergonhadas, incluindo aí uma espada ninja. Tudo o que se convencionou chamar pós-moderno vem entregue de bandeja. Mas é claro que numa embalagem que abrasileira de maneira coerente a coisa: corrupção política e marginais pés-de-chinelo incluídos. Há que se elogiar ainda uma cena de sexo repleta de efeitos, coreografada e captada com uma estética primorosa. Um verdadeiro presente para os olhos para quem, como eu, se atreveu a arriscar uma sessão de Bruna Surfistinha esperando algo mais que um revival da pornochanchada setentista.

De vez em quando é preciso que alguém se proponha a virar o jogo. Não que 2 Coelhos seja um divisor de águas. Mas sua existência mostra que fugir à uma certa preguiça que parece imperar neste terreno de filmes nacionais pop - onde um humor tosco ou tramas novelescas que, por enquanto, estão ditando as regras do jogo - é possível.