01 junho 2012

Expectativas


Essa casa onde agora toca o telefone tem dois quartos e uma sala.
Quando eu era só um moleque desbravando a biblioteca da minha escola, atrás de outras coisas que já não eram mais Um cadáver ouve rádioO mistério do 5 estrelas e quetais (aliás, aproveito o momento aqui para oferecer minha gratidão ao que a obra do grande Marcos Rey fez por minha vida. Bom que mais tarde cheguei também nO último mamífero do Martinelli”, “Faca de dois gumes”, etc), criei o critério completamente aleatório de decidir, pela qualidade da primeira frase de cada livro, qual seria minha próxima leitura. Claro que estamos falando de subjetivismo total, quando não? Devo ter perdido obras maravilhosas por esta decisão, que envolvia  inclusive, abdicar da leitura da sinopse e não estabelecer preconceito por desconhecimento total em relação ao autor. Aliás, com onze anos, que conhecimento se tem sobre obras de autores, se você não é um superdotado que começou a ler Thomas Mann na pré-escola?

Lembro deste critério de então ao abrir Laura e Julio(Planeta, 160 páginas, 2007), romance do espanhol Juan José Millás que me caiu às mãos hoje, recomendado por um colega. Ele inicia com a frase com que abri este post. E talvez por sua simplicidade, com certeza por sua construção algo alegórica, um convite a  se saber quem ali vive e que importância terá a casa na trama, me conquistou. Seria (será?) um dos livros que retiraria da estante metálica da minha então escola para passar o fim de semana comigo.

Tem outra coisa, que muito rapidamente percebi. Ele me lembra, ainda, este início: 
Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.
Trata-se do início de Casa Tomada, conto de Julio Cortázar. Ironicamente, é um início bem mais longo (incluindo aí um longo parêntese), que o do romance de Millás, contradizendo o princípio do tal do punch que deve sempre representar um conto em todas as suas instâncias, e mais próximo  como se percebe, uma vez terminada a leitura  da noção da esfera, que sempre norteou o trabalho do escritor argentino.

Mas se o texto de Cortázar é sobre Irene e o protagonista, personagens que viviam um “simples e silencioso casamento de irmãos”, o romance de Millás é sobre um casamento que se desfaz, do jovem casal que dá nome ao livro. E, creio, as comparações terminam por aí. Mas isto é coisa que só poderei certificar quando terminada a leitura.