22 janeiro 2013

Sinapses #02: Literatura e levedura

A imagem do escritor buscando inspiração acompanhado de seu drink favorito é tão conhecida quanto verdadeira. Não foram poucos os grandes nomes da literatura que ficaram associados às mais diversas bebidas, tais como Ernest Hemingway, Oscar Wilde e Scott Fitzgerald, entre outros. O livro Guia de Drinks de Grandes Escritores Americanos, de Edward Hemingway e Mark Bailey (Editora Zahar, 104 págs.), dá conta de uma bela porção deles, reunindo receitas de drinks e trechos de obras literárias que mostram o fascínio de romancistas, contistas, poetas, jornalistas e críticos pelo mundo da bebida.
Mas, se Hemingway tinha predileção pelo mojito, Oscar Wilde pelo absinto e Dylan Thomas pelo uísque puro, quem declamava seu amor pela cerveja? Charles Bukowski é a resposta.




Nascido em Anderson, na Alemanha, em 1920, Bukowski mudou-se para a América com dois anos e tornou-se um dos poetas e ficcionistas mais conhecidos dos Estados Unidos. Mas isto muito depois de amargar uma vida passada em quartos de hotéis baratos, subempregos e um histórico familiar que virou motivador da escrita alucinada que marcou sua produção. Bebedor desbragado, tal qual seu alter ego, Henry Chinaski, Bukowski criou uma imagem mítica ao seu redor, ficando conhecido como “Velho Safado”, com sua poesia e prosa que, como não escondia, eram quase sempre autobiográficas. Uma obra cujos temas mais recorrentes são ódio, amor, paixão e melancolia, entremeados de muitas aventuras ébrias, que podem ser conhecidas nos mais de 50 livros que escreveu. 

Aqui, três ótimas portas de entrada para a obra deste autor, fã de boilermaker, drink de bourbon e cerveja tipo lager e que tem, inclusive, um poema intitulado “Cerveja”, que pode ser encontrado no livro O amor é um cão dos diabos (L&PM, 304 págs.).


HOLLYWOOD

[L&PM, 248 págs.]
Escrito a partir da experiência de Bukowski como autor do argumento para o filme Barfly (com Mickey Rourke e Faye Dunaway), o livro narra a história de um escritor que ganha um bom dinheiro para escrever um roteiro para o cinema. Narrado em primeira pessoa, contém a carga de pessoalidade que nos comove com a trajetória do escritor tentando vencer na vida apenas com a máquina de escrever.




FACTÓTUM

[L&PM, 184 págs.]
Bebidas, andanças por antros marginais, tentativas de ser publicado: aqui está Henry Chinaski, o alter ego de Bukowski, querendo se tornar um escritor. Nesta versão mundana do artista quando jovem, o herói é um sujeito sem emprego nem perspectiva, considerado “inepto para o serviço militar”, que cruza o país fazendo de tudo um pouco para se manter e poder fazer a única coisa que ama: escrever.




A MULHER MAIS LINDA DA CIDADE

[L&PM, 64 págs.]
Coletânea de contos de leitura rápida e fluida, como conversar com um ancião cheio de histórias no seu pub preferido. É o universo etílico do velho Buk na sua melhor forma, com seus quartos imundos de hotéis baratos, mulheres por qualquer merreca, apostadores com sonhos reduzidos a trapos e as manhãs enevoadas de Los Angeles. O conto que dá título ao livro originou o filme Crônica de um amor louco, de 1981, do italiano Marco Ferreri.





Publicado originalmente na HNB Mag.