02 março 2013

Sinapses #03: Literatura e levedura


Hunter S. Thompson nasceu em Louisville, Kentucky, nos Estados Unidos, em 1937. Adolescente problemático, encontrou na escrita o seu abrigo quando começou a escrever para o jornal da base da Força Aérea, onde servia. Profundamente impactado pelo Movimento Beat, emendou uma série de empregos em redações de jornais e revistas, sendo demitido de uma porção deles até passar por publicações como El Sportivo e National Observer, na maior parte das vezes como freelancer. Talvez você ache que não o conhecia até agora, mas é bem provável que lembre de quem me refiro quando souber que seu segundo romance saiu no Brasil com o nome de Rum: Diários de um Jornalista Bêbado, (“The Rum Diary”) lançado pela Conrad, em 2005. Não por acaso, praticamente o mesmo título do filme de 2012, estrelado por Johnny Depp e também não por acaso o segundo filme em que o ator homenageia este jornalista e escritor cujo alto grau de bizarrice e prática profissional pouco ortodoxa foram os responsáveis por sua fama. 



Tudo fica mais claro se você já assistiu à Medo e Delírio em Las Vegas (“Fear and Loathing in Las Vegas”), uma produção de 98, adaptada do livro que compila uma série de artigos de Thompson escritos para a Rolling Stone. No filme, Johnny Depp interpreta Raoul Duke, alter ego com que Thompson assinava alguns de seus artigos, escritos sempre em primeira pessoa e repletos de doses cavalares de (álcool) parcialidade, falta de objetividade, (álcool) e a crença genuína de ser preciso indistinguir autor e sujeito da narrativa em situações frequentemente extremas ou transgressivas. Eis o “estilo” que ficou cunhado como Jornalismo Gonzo, decorrente de uma gíria irlandesa para designar o último homem em pé após uma maratona de bebedeira.



Corta para alguns anos à frente, quando dois sujeitos chamados George Stranahan e Richard McIntyre enfrentavam uma viagem desastrada pelo Himalaia - sem qualquer preparo físico e levando apenas um burro, uma mala repleta de contrabando e cerveja - e foram parar em um hotel decrépito no interior do Paquistão, no qual, após encherem a cara, deram de frente com uma pintura feita por um artista local na parede do lugar: um grande cachorro voador. Foi a inspiração para cervejaria que viriam a fundar em 1990, em Frederick, Maryland, a Flying Dog. E quem estes dois sujeitos têm como amigo? Hunter S. Thompson, simplesmente o cara responsável por apresentá-los ao desenhista Ralph Steadman, internacionalmente conhecido por seus cartuns e charges políticas e parceiro frequente em seus artigos. Ele tornou-se o ilustrador do rótulo de todas as 23 cervejas da marca, um projeto gráfico que traz o mesmo espírito insano que inundou os textos de Hunter Thompson. O ciclo se fecha ainda mais com o fato de uma das cervejas ser a mais genuína homenagem à Thompson, a Gonzo Imperial Porter, uma Baltic Porter com teor alcoólico de 7,8%, forte, encorpada, de creme denso, com aroma potente de café e amargor intenso. Força e intensidade: nada mais justo para homenagear um escritor que dizia: “Eu odeio advogar à respeito de álcool, drogas, insanidade e violência, mas elas sempre funcionaram para mim”.

Publicado originalmente na HNB Mag.