02 abril 2013

Sinapses #04: Literatura e levedura




“Subi ao último andar de um dos hotéis mais altos, entrei no espaçoso bar e pedi uma cerveja Heineken. Passaram bem uns dez minutos até vir a cerveja. Enquanto esperava, apoiei o cotovelo sobre o braço da cadeira e deixei-me ficar assim, de olhos fechados, com a cabeça apoiada na palma da mão. Não conseguia concentrar-me nem pensar em nada. Com os olhos fechados, a única coisa que ouvia era um ruído que me fazia lembrar uma centena de duendes a varrerem o interior da minha mente com as suas vassourinhas. Varriam e tornavam a varrer, e o trabalho deles nunca acabava. A nenhum deles passara pela cabeça usar uma pá do lixo. Quando me trouxeram finalmente a cerveja, emborquei-a em duas únicas goladas.”



O trecho acima é tradução portuguesa do livro Hitsuji o meguru bōken, de Haruki Murakami (que saiu em Portugal como Em Busca do Carneiro Selvagem, pela Casa das Letras, e no Brasil, pela Estação Liberdade, em 2001, como Caçando Carneiros). Considerado hoje o escritor japonês mais famoso no mundo, Murakami já foi traduzido para mais de quarenta idiomas e concorreu algumas vezes ao Nobel de Literatura. Com doze romances publicados, Murakami conseguiu construir uma obra que é um mix de cultura e personagens japoneses com temas de apelo universal, como música clássica, jazz, canções dos Beatles e romantismo, tudo temperado com algumas doses de fantasia. Em Caçando Carneiros, um publicitário de nome nunca revelado (assim como o de nenhum dos personagens), recebe a insólita missão de caçar um carneiro (!) “capaz de entrar na alma das pessoas e sugar-lhes todo o espírito de vida, a fim de mostrar seu imensurável poder e assim construir um grandioso império”. Sim, muitos pontos de exclamação.

Isto é só um aperitivo do que é capaz a mente de Murakami, cujo livro mais recente, que finalmente chegou ao Brasil, 1Q84 (Alfaguara, 432 páginas), vendeu cerca de 5 milhões de cópias, 4 milhões apenas no Japão, e atingiu o segundo lugar na lista dos mais vendidos do New York Times. Na trama, Tengo, um ghost-writer, e Aomame, uma assassina profissional, caem presos numa realidade paralela, em que enfrentam um misterioso culto religioso — enquanto procuram um pelo outro. Com personagens frequentemente jovens, perplexos diante do mundo, Murakami tornou-se um fenômeno épico junto aos adolescentes japoneses, que torciam por sua vitória no Nobel, em 2012, como na final de um campeonato.

No trecho descrito, o personagem inominado aguarda por sua Heineken, marca da cervejaria fundada em 1864 em Amsterdã. Terceira maior do mundo, não é à toa que a cerveja aparece no livro deste autor. Seu apelo pop é escolha perfeita para figurar em uma obra repleta de referências ocidentais de identificação imediata. Se já citou compositores como Debussy, já intitulou um dos seus livros com o nome de uma faixa do álbum Rubber Soul, dos Beatles, parece natural que Murakami — ex-dono de um bar de jazz em Tóquio — ceda uma participação a esta pilsen que tem duzentas garrafas abertas a cada segundo e é criadora das mais fantásticas ações de marketing e de publicidade do mundo cervejeiro. Figurar no livro de um autor acostumado com o fantástico (capaz de criar um mundo paralelo onde há duas luas), também faz todo o sentido para uma cerveja com sua própria dose de misticismo. Sua estrela vermelha é representativa disto: pendurada nos barris pelos cervejeiros medievais para proteger a bebida e garantir sua qualidade, suas pontas representam o poder da terra, fogo, vento, água e um quinto elemento mágico. Definitivamente, descobrir o que há por trás da história de cervejarias pode ser tão fascinante quanto absorver os mundos criados pela literatura. E, em qualquer um dos casos, o consagrado slogan de 2011 da Heineken, serve na medida: “Open your world”.

Publicado originalmente na HNB Mag.