27 maio 2013

Sinapses #05: Literatura e levedura




“Você fez muito bem, Paula lhe disse depois, agora será mais difícil que isso volte a acontecer, ou pelo menos assim espero. Vamos, eu convido os dois para uma cerveja. Sentamos num terraço perto do bulevar Saint Germain e bebemos, Paula e eu duas Stella Artois bem geladas e Salim, como sempre, um chá. Ao vê-lo num silêncio sorridente perguntei-lhe, o que foi?, e ele respondeu: é a primeira vez que eu entro numa delegacia de polícia, é como entrar no aquário das víboras e sair sem um arranhão.”

O protagonista Esteban e a personagem Paula são colombianos. Salim é marroquino. O cenário é a França. E a cerveja que bebem é belga. É esta profusão de nacionalidades, convergindo para uma Paris que não é centro luminoso do mundo, mas uma coleção de vielas de cantos sombrios, que marca o livro de Santiago Gamboa, A Síndrome de Ulisses (Planeta, 373 pgs.), de onde este trecho foi retirado.

É nesta Paris de Gamboa que imigrantes, na maioria ilegais, insistem em cultivar seus sonhos enquanto lutam pela sobrevivência. O relato inicial — em um livro que começa com a frase “Naquela época a vida não me sorria.” — que dá conta de um peruano que é preso no supermercado com duas bandejas de filé escorrendo sangue por debaixo do seu capuz, deixa claro: a Síndrome de Ulisses é um compêndio de tramas de estrangeiros errantes, mas esperançosos, ansiosos por mudar suas vidas em terras estrangeiras. E a amargura e dificuldade que estes estrangeiros passam ao tentar fixar-se em outro lugar vai ao encontro da síndrome de mesmo nome. Realmente existente, ela tem sua origem no mítico herói Ulisses, o qual, perdido durante muitos anos em seu caminho de volta a Ítaca, ansiava por sua terra natal mas era impedido de voltar. 

É este distúrbio que enfeixa o relato de Esteban — jovem que abandona Bogotá para estudar e se tornar escritor numa Paris mítica. Não tarda a receber, ao invés de uma cidade romântica, luminosa, bela, os rescaldos escuros, frios, solitários e de baixas possibilidades que Paris lhe reserva. Para pagar sua chambrita (o pequeno quarto sem banheiro em que mora), lava pratos nos porões de um restaurante, enquanto sua história é tecida às vozes de amigos e numerosas mulheres, quase todos saudosos dos vales e colinas deixados para trás em seus países de origem — mas que não conseguem se livrar do cinza da cidade subterrânea como Paris se apresenta para estes imigrantes africanos, orientais e latinos.

Considerado por alguns críticos como o sucessor de García Marquez e Vargas Llosa, Santiago Gamboa ainda não pode receber tal comparação dos leitores brasileiros, considerando-se que seu único livro traduzido aqui é este, de uma lista de dez obras já lançadas, entre romances, contos e relatos.

Se no trecho citado, a Stella Artois é degustada em um momento de comemoração, são poucas as outras vezes em que durante o romance isto torna a acontecer. Quase sempre a cerveja é consumida em situações que têm mais de fuga do que de celebração — e atestam a ansiedade e selvageria destes imigrantes esvaziando garrafas, entregando-se ao sexo e desfazendo-se cedo do sonho de prosperar em outra pátria. 

Conceitualmente, é contraditório que uma cerveja como a Stella Artois esteja ligada a um cenário tão desesperançoso. Afinal, a belga nasceu em 1926 exatamente em comemoração ao Natal — uma estratégia da Cervejaria Artois, antes chamada Cervejaria Den Horen. O que seria uma edição única, batizada de Stella (estrela em latim) em alusão à estrela que teria guiado os três reis magos no dia do nascimento de Jesus Cristo, rapidamente ganhou fama, tornando-se o carro-chefe da cervejaria: resultado de uma fabricação com ingredientes de primeira qualidade, feita com lúpulo da República Tcheca, do tipo Saazner. Não à toa, esta cerveja de sabor balanceado e marcante conquistou os paladares e tornou-se símbolo da Bélgica. E, ao longo dos anos, a Stella Artois só alçoou vôos mais altos em uma trajetória que parece fadada unicamente ao sucesso — ao contrário de Esteban, que, ao final do romance, só nos faz perceber um breve vislumbre disto.

Publicado originalmente na HNB Mag.