13 junho 2013

Sinapses 06#: Literatura e levedura



“Vestiu um terno azul com cachecol estampado, e o vi usar o perfume de um vidro que tinha sido de Celina. Gostava do seu modo de ajeitar o chapéu, com a aba levantada, e de seu passo leve e silencioso, bem malandro. Resignei-me a escutar — ‘os amigos são para estas horas’ — e na segunda garrafa de Quilmes Cristal derrubou sobre mim tudo o que tinha. Estávamos em uma mesa do fundo do café, quase sozinhos; eu o deixava falar, mas de quando em quando servia-lhe cerveja. Quase não me lembro de tudo o que disse, acho que na verdade era sempre a mesma coisa.”



Quem veste o terno é Mauro. Celina, a dona do perfume, é sua mulher que acaba de morrer. Quem gosta do jeito de Mauro ajeitar o chapéu é Marcelo Ardoy, advogado. É ele quem — em uma Buenos Aires de suados bailes de tango nos anos 40 — leva o amigo ao cabaré Santa Fe Palace, para tentar livrar-se um pouco do sofrimento e quem sabe até dançar uma machicha. Neste clima pós-funeral é que se desenha o conto As portas do Céu, do livro Bestiário (Nova Fronteira, 149 págs.), deste que é considerado um dos maiores contistas de todos os tempos, Julio Cortázar. Costuma ser lugar-comum entre os que analisam sua obra usar o labirinto, o mosaico e o caleidoscópio para representar a complexidade de sua literatura. Uma coisa é fato: a primeira impressão sobre um texto do autor quase sempre é de vertigem. Quando o leitor se recupera, já está implicado num jogo misterioso que o impele a buscar mais. É assim quando se percorre os oito contos deste livro, a inauguração do seu universo ficcional, embora Cortázar já tivesse publicado um livro de poemas antes deste.


Contista fecundo, Cortázar nos presenteou com mais de uma centena de contos e muitas análises e reflexões sobre literatura. No romance, em pelo menos uma das vezes atingiu altura excepcional: o livro O Jogo da Amarelinha, em que, em um ir-e-vir de capítulos, a montagem da obra se dá ao bel-prazer do leitor. Embora sua obra seja definida, na maioria das vezes, como literatura fantástica (muito pela proximidade temporal e estética com Jorge Luis Borges), o autor preferia o termo narrativas de estranhamento. E é este estranhamento, em situações em que o inesperado rompe a tranquilidade, que marca também o conto do trecho acima.


No que começa como uma noite de divertimento ao som de uma orquestra de tango, logo cria-se uma ruptura. Assim, aos olhos do narrador, “as mulheres quase anãs e meio chinas” e “os sujeitos parecendo javaneses (...), o cabelo duro penteado a muito custo”, frequentadores do cabaré, convertem-se ao que ele chama “monstros”. E não falamos de bichos tenebrosos, mas a dubiedade com que o dr. Marcelo transforma estes homens e mulheres em seres grotescos — e que tem o tanto de superioridade social do narrador e outro tanto de deslocamento em relação ao ambiente — é exemplo desta sutileza com que Cortázar distorce a ótica dos seus leitores. É esta difusão, um “não entender bem”, que leva Mauro, ele também embrigado, confuso, a agarrar-se a uma magrinha de nome Ema.


À primeira vista, pode-se pensar que é somente este ambiente de tango, de “gritos e aplausos entre os monstros”, de goles ruidosos de suco de romã, o único responsável pela atmosfera onírica que se instaura. É certo que a Quilmes Cristal também o é, com sua participação mais do que natural neste conto. Afinal, “a cerveja favorita na Argentina”, como estampado orgulhosamente em seu rótulo, é popular o bastante para figurar neste cabaré fumacento. Fundada em 1888, na cidade de onde tirou o nome, na província de Buenos Aires, é um símbolo nacional, responsável por cerca de 75% do mercado de cerveja argentino. E é até irônico que a estrela dos hermanos hoje esteja parcialmente em mãos brasileiras, no portfólio do grupo InBev. Com sua coloração clara e de colarinho médio, conhecida por sua refrescância, parece a escolha certa naquele cabaré quente, para afogar o luto de um ensandecido Mauro. Tão ensandecido que, no meio do Santa Fe Palace, perdido entre o que são nuvens espessas de cigarro, vê, junto com um não menos atordoado dr. Marcelo, uma Celina que sai da fumaça e dança o tango, em meio a uma luz amarela. E eles, cansados e sedentos, já não conseguem acreditar no que viram juntos — ou no que imaginaram ver.

Publicado originalmente na HNB Mag.