08 agosto 2013

Sinapses #07: Literatura e levedura



"Entrou pela San Miguel e viu um anúncio luminoso, grande demais para uma loja pequena: 'Bar Okinawa'. Tinha ar-condicionado. Ainda bem. Sentou-se diante do balcão e engoliu dois sanduíches de presunto e queijo com uma cerveja cubana. Hatuey. Mais leve que a inglesa, mas muito boa. Olhou em volta. Só havia um casal, tomando uns coquetéis. Terminou a cerveja. Quando pagou, o barman lhe perguntou em inglês:

— Quer diversão, senhor?

— Hmm.

— Olhe isto. Se gostar de alguma, eu a chamo. Todas têm telefone. São mulheres de categoria.

O barman lhe deu um pequeno álbum. Algumas nuas. Outras vestidas com roupas de baixo muito finas. Em cada foto tinham escrito um nome de guerra: Berta, Olga, Lázara, Maria, Puchi, Coqui. Azucena. Rosi."


Nesta Havana imaginada dos anos 50, o sujeito desfrutando uma Hatuey é ninguém menos que Graham Greene. Ele mesmo, um dos mais importantes romancistas da língua inglesa. E é o mestre de histórias de espionagem — na maioria das vezes ambientadas durante a Guerra Fria —, autor de O Terceiro Homem e O Americano Tranquilo, o protagonista de Nosso GG em Havana (Alfaguara, 128 pgs., 2008), do cubano Pedro Juán Gutiérrez. O escritor, conhecido por livros em que descreve cruamente cenas de sexo, hedonismo e uma Cuba decadente, é uma figura magnética. Tanto por sua prosa quanto por sua frequente participação em eventos literários e entrevistas. O Brasil recebeu constantemente o autor que, até não muito tempo atrás, só podia ser lido em seu país de forma clandestina. Culpa de um regime intolerante ao que consideravam crítica ao país, e que pode ser visto, principalmente, nos cinco volumes que formam o chamado Ciclo do Centro de Havana, composto por Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana, Animal Tropical, O insaciável homem-aranha e Carne de Cão. O fato é que a ojeriza oficial à sua figura não evitou que se tornasse mundialmente famoso, publicando livros em cerca de 20 países e traduzido para 18 idiomas.



Se em toda sua obra, e até mesmo em sua poesia, o ex-vendedor de sorvetes, ex-instrutor de caiaque, ex-cortador de cana-de-açúcar, ex-soldado, ex-locutor de rádio e ex-jornalista explora, de forma mordaz e direta, a marginalidade, o sexo e a miséria, em Nosso GG em Havana, Gutiérrez abandona o aspecto mais autobiográfico de seus livros anteriores para criar uma divertida história de espionagem em uma imaginada Havana. A trama é baseada em fatos reais, quando Graham Greene desembarcou na capital da Cuba pré-Fidel, em julho de 1955, para esclarecer um mistério envolvendo seu nome. Ali, mergulhou num mundo repleto de artistas pornôs, travestis, agentes do FBI e da KGB, caçadores de nazistas e a máfia italiana de Nova Iorque. É com este clima de história policiais que Gutiérrez constrói uma trama internacional de assassinato, num livro de frases curtas e ritmo vertiginoso, onde carrões potentes e modernos levantam poeira por ruas infestadas de gringos atrás de cassinos e prostitutas.



Uma Havana suarenta — inferno para alguns, paraíso para outros —, mas nela não só o mojito, a cuba libre, e a pinã colada aplacam o clima caliente. Também uma geladíssima Hatuey descia muito bem, direto do gargalo. Lançada em 1927 pela Compañía Ron Bacardí SA y los Cerveceros de Santiago Brewing Company, a cerveja nasceu de uma decisão da empresa fabricante do famoso rum Bacardí em produzir cerveja para consumo local. Para isto, foi contratado o alemão George J. Friedrich. De sabor suave, esta Ale ficou conhecida por sua amargura agradável e refrescante. Considerada uma cerveja premium, gozou de grande popularidade durante toda a década de 50, sendo responsável por mais de 60% do mercado cubano. Em 1960, depois de 34 anos de crescimento ininterrupto, a Compañía Ron Bacardí e Hatuey Cervecerías foram confiscadas pelo regime totalitário do país, perdendo mercado. Na década de 90 foi lançada nos Estados Unidos pela Bacardí americana, sem muito entusiasmo. A cerveja ficou mais de um ano fora do mercado e foi relançada algum tempo depois, segundo especialistas, quase idêntica à sua lendária versão cubana de 1927. Imortalizada na obra de Ernest Hemingway, a Hatuey ofereceu uma grande festa ao famoso escritor, que tinha uma casa em Havana, quando este recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Mais uma prova da inexorável convergência entre estes dois grandes prazeres da vida.

Publicado originalmente na HNB Mag.